Na 40.ª edição do Il Cinema Ritrovato, Bolonha volta a afirmar-se como um dos epicentros mundiais da cinefilia. É que, mais do que um festival, trata-se verdadeiramente de um laboratório vivo de memória cinematográfica, onde o passado não é apenas preservado, mas reativado, discutido e reinscrito no presente.
Sim, a Piazza Maggiore aguarda-nos. Ela que permanece como o coração dessa enorme experiência coletiva. É ali, sob o ciclorama das estrelas, que o cinema reencontra a sua dimensão de ritual. E não há como contornar aquele que será, por certo, um dos momentos altos desta edição verdadeiramente XL, ou seja, a projeção de Aurora (1927), de F.W. Murnau, devidamente acompanhada com uma orquestra ao vivo pelo maestro Timothy Brock, numa combinação que devolve a devida escala de espetáculo total aquele que consideramos, provavelmente, a maior obra-prima do cinema.
Mas o Ritrovato é também um festival de encontros e de olhares. Este ano, sob a mirada insinuante e provocadora de Barbara Stanwyck, atravessando o tempo para nos fitar na tela, convocando-nos para um diálogo íntimo com a história do cinema, em filmes como Ladies of Leisure (1930), de Frank Capra, Easy Living (1937), de Mitchell Leisen, também ele aqui em retrospetiva, ou Double Indemnity (1944), de Billy Wilder, que vimos ainda o mês passado na Cinemateca Portuguesa, com a Histórias do Cinema de Andrian Martin.

No nosso caso reservaremos uma boa parte dessa reflexão para a Piazzetta Pasolini, acompanhando debates sobre restauro, digitalização e políticas de preservação. Por certo, com a presença da FIAF (Federação Internacional dos Arquivos de Filmes) e até com contributos portugueses, como o de Tiago Ganhão, do ANIM, o arquivo da Cinemateca Portuguesa, para nos dar alguns argumentos da cada vez mais urgente defesa da preservação fotoquímica em tempos de hegemonia digital.
Ao longo da semana, teremos oportunidade de seguir alguns dos restauros saídos da Cineteca de Bolonha, onde Cecilia Cenciarelli assume uma responsabilidade acrescida. Entre os restauros mais aguardados, destaca-se The Devils, de Ken Russell (1971), invisível durante quatro décadas na sua versão integral. Isto ao lado de retrospectivas e redescobertas que cruzam geografias e sensibilidades: de Roger Corman a Shohei Imamura e Andrzej Wajda, passando por revisitações de obras iniciais de Martin Scorsese. O festival propõe ainda uma reavaliação de títulos considerados “menores” de autores canónicos como Orson Welles, Akira Kurosawa, Joseph L. Mankiewicz ou Luigi Comencini.
Há também espaço para a descoberta: cineastas menos circulados como Oldřich Lipský ou Yurii Illienko emergem numa programação que insiste em alargar o cânone. Nesse mesmo gesto, presta-se homenagem a Artavazd Pelechian, figura maior do cinema independente, cuja obra, rara e essencial, beneficia agora de um processo de restauro que permitirá uma nova circulação internacional e que terá uma merecida apoteose na Piazza Maggiore.
O diálogo com a história inclui ainda revisitações fundamentais: o pacifismo centenário de What Price Glory? (1926), de Raoul Walsh; o génio cómico do período mudo de Laurel e Hardy; ou o monumental Quo Vadis? (1913), de Enrico Guazzoni, marco do cinema épico italiano.
Entre os ciclos temáticos, sobressai a atenção dedicada à comédia screwball de Mitchell Leisen, com títulos como Easy Living, Hold Back the Dawn e Midnight, bem como a redescoberta de Ossessione (1943), de Luchino Visconti, obra inaugural marcada pela censura fascista, num contexto em que se assinala o cinquentenário da morte do realizador.
Já mencionámos vários pontos altos, embora não ainda, talvez aqueles que consideramos, talvez, os pontos mais altos desta edição. Talvez a curta, mas muito concorrida retrospetiva, do cineasta indiano, Ritwik Ghatak, um dos grandes disruptores da história do cinema. Apenas oito longas, antes da sua morte em 1976, bastaram para deixar uma marca pela experiência da partição de Bengala e uma edição e linguagem que funde o melodrama politico e a experimentação formal, com uma obra breve mas fulgurante, que importa resgatar. Isto a par do cinema do espanhol Juan Antonio Bardem, sim, tio do famoso ator Javier Bardem. Também Daisuke Ito é revisitado numa retrospetiva que percorre quase meio século de atividade.

No programa “Cinema Libero”, a dimensão política ganha centralidade. Filmes de realizadores como Lino Brocka ou Dariush Mehrjui exploram as tensões sociais e económicas dos anos 1970, enquanto obras de Sékoumar Barry (Et Vint la Liberte) ou Sarah Maldoror (Et les Chiens se Taisent) confrontam temas como a descolonização, a migração e o racismo. É neste contexto que surge Mudar de Vida, de Paulo Rocha, numa sessão apresentada por Rui Machado, diretor da Cinemateca Portuguesa, reafirmando o lugar do cinema português nas transformações estéticas do Novo Cinema português.
Ainda as “Lições de Cinema”, promovendo encontros com cineastas e pensadores contemporâneos. Sera o caso de Isabella Rossellini, Irène Jacob ou ainda Alice Rohrwacher, mas também Wim Wenders, Arnaud Desplechin, e Lav Diaz, mas igualmente Kleber Mendonça Filho e Marco Bellocchio, como algumas das presenças confirmadas nesse espaço de transmissão de saber e experiência cinéfila.
Quarenta edições depois, aí está o Il Cinema Ritrovato continuando a afirmar-se como um território que resiste ao esquecimento, luta contra a obsolescência programada das imagens, mas também contra a ideia de que o cinema pertence apenas ao presente. Em Bolonha, o passado projeta-se em grande escala – em versão XL. Considerando-se, obstinadamente, vivo!








