De 10 a 18 de outubro, Lyon recebe a 18.ª edição do Festival Lumière, com Joel e Ethan Coen como cabeças de cartaz e homenageados com o Lumière Award. Sob a direcção de Thierry Frémaux, o festival articula o melhor do património cinematográfico com a presença de estrelas de Cannes, antestreias e uma programação que celebra o cinema como memória viva e experiência colectiva.
Há poucos lugares no mundo onde a história do cinema se encontra tão intimamente ligada ao espaço onde é celebrada. Aliás, essa é uma das razões porque gostamos sempre de regressar a Lyon, à cidade dos irmãos Lumière. Justamente ao local onde a família viveu e onde se situavam as instalações industriais e de onde foi captado aquele que é considerado o primeiro filme da história do cinema, A Saída dos trabalhadores das Fábricas Lumière (1895). É precisamente neste território de origem que, todos os anos, o festival desenha um novo capítulo da história do cinema, escolhendo uma figura ou um conjunto de figuras que permitam revisitar a criação cinematográfica a partir do presente.
Em 2026, esse novo plano tem os rostos de Joel e Ethan Coen. Os dois irmãos, autores de Fargo (1996), O Grande Lebowski (1998) e Este País Não É para Velhos (2007), entre tantos outros títulos, receberão o 18.º Prémio Lumière, distinção que celebra o conjunto de uma obra e a sua relação com a história do cinema. A escolha dos Coen inscreve-se numa tradição de homenagens a grandes autores do cinema mundial, mas adquire um significado particular num festival que, desde a sua origem, faz da cinefilia uma forma de reencontro entre o património e os espectadores.
A programação do Lumière não se esgota, contudo, na celebração de um nome. Uma das suas singularidades reside na capacidade de Thierry Frémaux, director do festival, articular a redescoberta dos filmes e dos arquivos com a presença de grandes figuras contemporâneas do cinema, muitas delas associadas ao universo de Cannes, e com a apresentação de antestreias. A memória cinematográfica não é aqui separada da actualidade: os clássicos, as obras restauradas, os cineastas consagrados e os filmes recentes convivem numa mesma experiência de festival.
Essa articulação assume particular importância na trajetória do Instituto Lumière após o desaparecimento de Bertrand Tavernier (1941-2021), figura fundamental da cinefilia francesa e um dos nomes ligados à identidade do festival. A continuidade do projecto sob a direcção de Frémaux reafirma a ambição de preservar a sua vocação original, ao mesmo tempo que lhe confere novas possibilidades de diálogo com o cinema contemporâneo.

A edição deste ano propõe, assim, uma viagem por diferentes épocas, geografias e sensibilidades cinematográficas. Entre retrospectivas dedicadas a autores consagrados e cineastas a redescobrir, novas restauros, cine-concertos, homenagens e sessões especiais, o festival reafirma a vitalidade do património cinematográfico e a importância de reencontrar os filmes no grande ecrã.
Retrospectivas: autores, geografias e redescobertas
A programação inclui uma retrospectiva dedicada a Ettore Scola (1931-2016), um dos grandes cineastas italianos do pós-guerra. Herdeiro da comédia à italiana, Scola desenvolveu uma obra em que o humor, a melancolia e o olhar político se encontram numa reflexão sobre a memória, a passagem do tempo e a experiência dos indivíduos perante a História.

A diversidade do cinema americano estará representada por Norman Jewison (1926-2024), cuja filmografia percorre a comédia romântica, o musical, o policial, o filme de tribunal, a ficção científica e o drama social. Desde No Calor da Noite (1967) a O Caso Thomas Crown 1999), a retrospectiva recupera uma obra marcada pela exigência e pelo sentido do entretenimento.
Uma das linhas fortes da edição consiste na recuperação de cineastas femininas que permaneceram durante décadas nas margens das narrativas dominantes da história do cinema. A retrospectiva dedicada à cineasta carioca Gilda Abreu, mas também Maria Plyta, Wendy Toye, Paula Delsol, T’ang Shushuen, Elaine May e Marta Mészáros propõe um conjunto de percursos autorais de diferentes geografias, revelando a diversidade das contribuições das realizadoras para o cinema dos seus países.

O compromisso entre cinema e política será explorado através de Louis Daquin, realizador, resistente, militante comunista e sindicalista profundamente envolvido na defesa dos profissionais do cinema. A sua obra permite revisitar uma concepção do cinema como prolongamento de convicções e instrumento de intervenção no mundo.
A Grécia dos anos 1950 constitui outro dos territórios de descoberta. Sob o impulso de uma geração de talentos, a produção cinematográfica grega conheceu então um período de crescimento e renovação, conquistando a atenção da crítica, do público e dos festivais internacionais. O ciclo será acompanhado pelo cineasta grego Panos Koutras, que apresentará numerosas sessões.
Os convidados: entre a memória do cinema e a sua actualidade
A dimensão cinéfila do Festival Lumière manifesta-se também na presença dos seus convidados. Ao longo de nove dias, Lyon transforma-se num lugar de encontro entre gerações de cineastas, actores e espectadores, onde a redescoberta de obras do passado convive com a apresentação de novos filmes e com a possibilidade de ouvir, directamente dos seus autores e intérpretes, as histórias que atravessam o cinema.

A acompanhar os irmãos Coen estará Frances McDormand, actriz fundamental da sua filmografia, cuja presença acrescenta uma dimensão particular à homenagem. A relação entre os realizadores e os intérpretes que os acompanharam ao longo das suas carreiras constitui, aliás, uma das marcas do cinema dos Coen, feito de personagens memoráveis, diálogos precisos e uma extraordinária atenção ao trabalho de actores.
Entre os convidados internacionais destaca-se Tsui Hark, figura maior da Nova Vaga de Hong Kong, cineasta e produtor que reinventou o cinema popular através do fantástico, das artes marciais e de uma experimentação visual permanente. A sua presença permite revisitar uma obra onde o espectáculo e a invenção formal se encontram numa relação particularmente fértil.
O cinema francês estará representado por Agnès Jaoui, actriz, argumentista e realizadora, que participará numa noite especial com música e projecção, além de uma masterclass dedicada à sua cinefilia. Abel Ferrara, por sua vez, regressa ao festival por ocasião da publicação da sua autobiografia, Scène. Mémoires, numa presença que permitirá reencontrar um cinema marcado pela marginalidade, pela violência e por uma dimensão espiritual e febril.
A actriz chinesa Zhang Ziyi, presença de destaque no cinema asiático e internacional, apresentará Tigre e Dragão, de Ang Lee, e participará numa masterclass. Todd Haynes, acompanhado pela sua produtora histórica Christine Vachon, estará em Lyon para apresentar as novas restauros de Poison e Safe, além de outras obras da sua filmografia. Nadine Labaki, realizadora, argumentista e actriz libanesa, participará igualmente no festival, onde serão exibidos filmes como Caramel, E agora? Para onde vamos? e Cafarnaum.
A programação contará ainda com Robert Eggers, que apresentará uma selecção da sua obra e animará uma noite no Institut Lumière, e com Wim Wenders, vencedor do Lumière Award em 2023, que regressa a Lyon para acompanhar o novo restauro do seu primeiro filme, Alice nas Cidades, e apresentar o seu novo documentário em antestreia.
A estes nomes juntam-se os realizadores e equipas dos filmes em antestreia, entre os quais Bérenger Thouin, Javier Calvo, Javier Ambrossi, Lukas Dhont, Rafiki Fariala, Guillaume Canet, Christophe Honoré, Andrei Zvyagintsev, László Nemes, Lee Chang-dong, Brad Bird, Daniel Auteuil, Jean-Gabriel Périot e Travis Knight. O director de fotografia Caleb Deschanel participará ainda numa masterclass dedicada ao seu trabalho.
Esta constelação de convidados confirma a singularidade do Lumière: um festival onde a cinefilia não se reduz à contemplação do património, mas se constrói através do encontro. Os filmes são vistos, comentados, apresentados e celebrados por aqueles que os fizeram e por aqueles que os continuam a descobrir. Em Lyon, a história do cinema permanece, assim, uma experiência viva, partilhada entre o arquivo, a sala e a presença dos seus protagonistas.
O cinema mudo e a experiência em sala
A programação do Festival Lumière não se limita à preservação e projecção de filmes. Os cine-concertos recuperam a dimensão performativa do cinema mudo e a relação entre imagem, música e experiência colectiva.
Entre as propostas encontra-se uma sessão dedicada a uma lenda do cinema mudo cuja modernidade e audácia continuam a inspirar o imaginário contemporâneo, com acompanhamento ao órgão por Gabriele Agrimonti. O festival apresentará também um programa inédito de três curtas-metragens do rei do gag, acompanhadas ao vivo ao piano por Didier Martel.
A programação inclui ainda uma proposta para toda a família, com uma grande sala, animações, ambiente festivo e preços acessíveis. São diferentes formas de reafirmar que o património cinematográfico não pertence apenas aos especialistas ou aos arquivos: pertence também aos espectadores, às comunidades e às novas gerações.
Lumière Classics: o património cinematográfico em movimento
Criado há 17 anos pelo Festival Lumière, o selo Lumière Classics distingue as mais relevantes restaurações recentes do património cinematográfico mundial. Todos os anos, cinematecas, estúdios, arquivos, fundações e detentores de direitos apresentam obras para selecção, num processo que permite reunir no festival filmes raros, pouco conhecidos ou já reconhecidos como clássicos.
A edição de 2026 inclui restaurações provenientes de países como Alemanha, Argentina, Austrália, Croácia, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Índia, Itália, Japão e Eslováquia. A secção Tesouros e curiosidades (que exibiu, em 2023, As Ilhas Encantadas, de Carlos Vilardebó) reúne obras que merecem ser reencontradas, enquanto outras restaurações integram as retrospectivas e as restantes secções do programa.
Celebrações, homenagens e momentos especiais

A edição de 2026 reúne ainda uma série de personalidades, obras e acontecimentos fundamentais da história do cinema. Entre os principais destaques encontra-se o lançamento do centenário de Metropolis, de Fritz Lang, rodado em 1926 e estreado em 1927, com uma nova partitura composta e dirigida por Don Davis, compositor de Matrix.
O festival prestará homenagem a Tony Gatlif, cineasta e amigo próximo do Lumière, através da apresentação de Latcho Drom. A obra de Tonie Marshall, presença fiel do festival, será revisitada por ocasião da publicação do livro Toto, de Olivier Bomsel.
O programa inclui igualmente a redescoberta de Espoir, Sierra de Teruel (1945), única realização de André Malraux, no âmbito do cinquentenário da sua morte, e uma atenção particular à obra de Gustav Machatý, cineasta que, na transição do mudo para o sonoro, desenvolveu um cinema sensual e atento aos desejos e inquietações das suas personagens.
Entre as redescobertas mais aguardadas encontra-se ainda Os Demónios, de Ken Russell, obra mítica do cinema britânico que regressa na sua versão definitiva, restaurada em 4K.

Documentários e grandes clássicos no grande ecrã
A programação documental propõe uma aproximação a figuras e momentos da história do cinema através de filmes inéditos dedicados, entre outros, a Jane Birkin, Frances McDormand, Marina Vlady, Marco Bellocchio e Jean Gabin.
O festival reserva também um espaço à experiência essencial da sala de cinema: a possibilidade de rever ou descobrir grandes obras em condições de projecção que lhes devolvem a sua dimensão colectiva. Entre os títulos anunciados encontram-se A Loucura das Grandezas, de Gérard Oury, A Viagem ao Fim do Inferno, de Michael Cimino, Shining, de Stanley Kubrick, 37°2 le matin, de Jean-Jacques Beineix, A Insustentável Leveza do Ser, de Philip Kaufman, Danças com Lobos, de Kevin Costner, Ghost in the Shell, de Mamoru Oshii, The Departed, de Martin Scorsese, e Train to Busan, de Yeon Sang-ho.









