Quarta-feira, Abril 17, 2024
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Kiera Chaplin: “Acho que hoje em dia é muito bom ser mulher”

A neta de Charlie Chaplin representou na Berlinale um filme centenário do avô: A Woman of Paris

“Sabe, se tivesse de escolher, acho que seria mais realizadora do que actriz. Gosto mais de dar ordens do que as receber”, confessa-nos a certa altura Kiera Chaplin, na suíte do J.W. Mariott, em Berlim. Certamente, palavras de quem cedo preferiu seguir o seu caminho em vez daquele já previamente traçado pela sua família.

Na verdade, não é todos os dias que temos o privilégio de conhecer um membro da família do mítico Charles Chaplin (1889-1877). Ainda que Kiera Chaplin tenha sentido desde cedo a necessidade de sair debaixo da sombra do seu apelido — ela que é também bisneta do dramaturgo Eugene O’Neill (1888-1953). Kiera veio a Berlim aceitando o convite para apresentar na Berlinale Classics o filme centenário do avô Charlie Chaplin, A Woman of Paris, precisamente aquele que deveria ser o primeiro filme que Chaplin iria realizar pela United Artists, os estúdios que havia criado em 1919, com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D.W. Griffith. Curiosamente, este também um filme sem Chaplin – apenas aparece com uma breve cameo, como porteiro. Em todo o caso, este drama social (com Edna Purviance e Adolphe Menjou) escapou ao sucesso de público, apesar de ter conquistado os críticos e, em particular, Ernst Lubitsch. Depois de ser afectado pela censura, Chaplin decidiu retirá-lo do mercado durante quase meio século (até aos anos 70). Razão pela qual faz todo o sentido esta sua redescoberta, no seu centenário, numa cópia restaurada e com uma nova banda sonora do próprio Chaplin, como nos confessa a super-modelo, feminista e humanista Kiera Chaplin.

Está aqui em Berlim a promover o seu filme centenário A Woman of Paris. Isto apesar de ainda recentemente se ter comemorado o centenário de The Kid. O curioso é que este não é um dos seus filmes mais conhecidos…

A Woman of Paris fez agora 100 anos e será, provavelmente, um dos menos conhecidos filmes do meu avô. Além de ser um filme em que ele não aparece. Tem apenas uma pequeníssima aparição. De tal maneira que se não estiver com atenção poderá não dar por ele. É um drama que as pessoas não estavam muito habituadas naquela altura. Apesar de não ter tudo muito sucesso quando saiu, talvez por as pessoas estarem à espera de o ver no ecrã, bem como por não ser uma comédia. Ainda assim, não deixou de ser um filme muito influente, mudou o estilo de como os filmes era feitos, pois na altura, os dramas eram muito melodramáticos, com muita influência do teatro. Ele percebeu que essa não era a nossa realidade enquanto seres humanos. Algo que pediu aos actores para moderarem a sua interpretação. Tornou ainda a heroína e o herói mais modestos, bem como o vilão como uma pessoa, de certa forma, agradável. Isso era bastante avant garde para a época.

Até o final é bastante inesperado. É algo que não esperamos…

Sim, exactamente. No entanto, a sua base de fãs terá ficado algo surpreendida com esta mudança de registo. Algo que não permitiu que o filme se tornasse num sucesso. E que fez com que alguns críticos na altura argumentassem que era um filme que iria alterar a forma de fazer cinema. Em parte, foi o que sucedeu.

É interessante descobrir este filme, sobretudo numa altura em que os filmes de património estão a ser restaurados e redescobertos. Nesse sentido, assistimos quase um renascimento do cinema.

Sim, sem dúvida, é um período muito interessante de redescoberta do cinema antigo. Por sinal, um dos aspectos mais interessantes deste filme é que o filme tem uma banda sonora inteiramente nova.

Sim, composta pelo próprio Charlie Chaplin.

Exacto. Foi composta por ele, mas com gravações que nunca tinham sido escutadas. Algo que ele compôs ao piano nos anos 50, pois foi nessa altura em que começou a compor a música dos seus filmes mais antigos. Até porque em 1923 o som no cinema era coisa muito recente, por isso não existiam ainda bandas sonoras. Não se dava ainda muita atenção quando começou a fazer a música para filmes como O Garoto de Charlot (1921), O Peregrino (1923), Luzes da Ribalta (1931), além de material que nunca tinha usado. Este material foi encontrado em 2003 e foi dado por nós ao Timothy Brock, que trabalha com a família há 25 anos colaborando na orquestra. Ele conhece muito bem a música e sabe quais partes funcionam. Até porque muita música que o meu avô escrevia era música de comédia, o que o obrigou a procurar as secções que poderiam ser escolhidas por ele. É incrível, porque ele já queria fazer isso quando tinha 87 anos. No entanto, já era demasiado velho, não lhe sendo permitido completar esse trabalho. Foi isso mesmo que conseguimos acabar, o que nos deixa muito felizes.

Curiosamente, a Kiera é também ‘uma mulher em Paris’…

Sim, é verdade (risos)…

Mais concretamente no mundo da moda. Diga-nos, como foi que aconteceu esse impulso?

Um amigo da família era fotógrafo de moda e levou-me para Paris para começar uma carreira de modelo. Eram os anos 90, em que existiam aqueles super modelos. Confesso que na altura fiquei fascinada por esse mundo. Era mesmo isso que queria fazer.

Qual era a sua modelo favorita na altura?

Gosto muito da Naomi Campbell, da Christie Turlington, Linda Evangelista…

“A Woman of Paris”, filme de Charlie Chaplin

Terá pensado na altura que o cinema não seria o seu futuro?

Acho que não pensei muito nisso, porque a moda era mesmo a minha paixão. Mesmo que na altura toda a gente me dizia que deveria trabalhar como actriz. Cheguei a representar. E gostei, mas não adoro, compreende? Acho que é algo que temos mesmo de sentir essa paixão. Aliás, se tivesse de escolher, acho que seria mais realizadora do que actriz. Gosto mais de dar ordens do que as receber… (risos).

Compreendo e faz sentido. Até por analisar o trabalho do seu avô enquanto realizador. 

Mas é verdade o que disse, há sempre muita pressão da família para seguir a tradição. Talvez até na carreira de modelo tenha sentido isso: serei eu ou o meu apelido que chega primeiro? Talvez por isso a carreira de actriz não tenha feito sentido para mim. Até porque senti necessidade de explorar outras coisas.

Imagino que não seja fácil ser uma Chaplin. Mas também a bisneta de Eugene O’Neil. Como é que vive com essa herança tão forte?

É claro que tenho muito orgulho. Ainda que essa proximidade possa ser encarada de um ponto de vista positivo ou até mesmo negativo. Pois há sempre o outro lado da moeda. A verdade é que foram pessoas extraordinárias e deixaram um legado tremendo e inspirador. Por isso, seria ridículo não estar orgulhosa de pertencer à sua família. Só posso estar muito orgulhosa. Ainda me parece tudo um pouco surreal.

Quando o seu avô faleceu, a Kiera tinha apenas cinco anos. Deixe-me perguntar-lhe do que sente mais falta de não o ter chegado a conhecer? Pois só o conheceu mais tarde.

Mas, sabe, se o tivesse conhecido, preferia que tivesse sido durante o final dos anos 20 e início dos 30, em que ele estava num enorme processo criativo. Tenho alguns primos que chegaram a conhecê-lo, mas ele já estava bastante debilitado, muito velho, numa cadeira de rodas. Eu prefiro não ter essa memória dele, mas apenas a imagem que criei dele. Acho que isso poderia diminuir um pouco o mito que ele representa.

Existe algum filme do Charlie Chaplin que prefira em relação a outros? 

Na verdade, não sei. Gosto imenso de muitos deles. Talvez Luzes da Ribalta seja um dos meus favoritos. Mas gosto muito do O Garoto de Charlot, obviamente, O Grande Ditador (1940). Gosto também muito do O Circo (1928). E de ver o meu avô a caminhar numa corda bamba, como uma pessoa de circo, foi incrível (risos). Acho que fiquei até mais impressionada com isso do que com o filme em si mesmo.

Lembra-se do primeiro filme dele que descobriu?

Não faço ideia. Até porque os comecei a ver ainda muito jovem.

Claro que tinha dentro de si aquela imagem icónica daquela personagem de chapéu de coco, bengala e aquele bigodinho…

Exactamente. Via-os de vez em quando na televisão, na Suíça (na sua casa em Genebra), onde moro. E onde existe agora o Museu Chaplin World. Há sempre muitos eventos Chaplin a acontecer.

Na sua carreira bastante diversificada, creio que está também envolvida em movimento de defesa dos direitos das mulheres. Algo muito relevante hoje em dia. 

É incrível tudo o que aconteceu em redor do movimento #Metoo. E ainda bem que aconteceu, porque existiam muitas coisas que tinham de ser abanadas e voltadas a colocar no seu lugar. Mas o que é interessante é que no tempo do meu avô em que ele era o actor mais bem pago, por exemplo, a Mary Pickford que fazia parte do seu grupo, casou com o seu maior amigo, o Douglas Fairbanks. E ela dizia, ‘se ele ganha um milhão de dólares por filme, então eu também quero ganhar o mesmo!’ E conseguia-o. E foi assim que começou com a Academia. E também fazia as suas coisas pessoais. Portanto, nessa altura, em Hollywood, as mulheres tinham a sua força. Mas, entretanto, não sei o que aconteceu, mas foram perdendo estatuto e os homens passaram a dominar. Foi preciso lutar de novo para conseguir os mesmos direitos, a serem ouvidas e não serem apenas consideradas num papel mais doméstico e secundário. Ainda bem que isso mudou. Acho que hoje em dia é muito bom ser mulher. Claro que ainda há muitas coisas a fazer. Como a minha obra de caridade, a Desert Flower Foundation, com o objectivo principal de lutar contra a mutilação genital. Só pensar que nos dias de hoje ainda temos de lurar contra este problema… Na verdade, como se vê, há ainda muito para lutar pelos direitos das mulheres. Mas damos um passo de cada vez.

Na Berlinale existe um foco importante por tudo o que se passa na Ucrânia, mas também no Irão, numa sociedade onde os direitos das mulheres pura e simplesmente não parecem existir. É chocante nos dias de hoje!

É muito triste pensar como lidamos com a nossa vida e esquecemo-nos de que estas situações existem. E de que existe tanta injustiça no mundo. Ainda bem que a arte poder ser uma plataforma para se iluminar certos casos e denunciara injustiças. É triste observar como no mundo de hoje ainda temos guerras como esta, na Europa, onde os direitos das pessoas são violentados. É de partir o coração. Nada deveria ser forçado. Como ser crime alguém apenas mostrar o seu cabelo, como sucedeu no irão.

Sei que também faz curadoria de um Prémio Chaplin. Do que se trata realmente?

O Chaplin Award é um prémio que atribuímos a um actor ou realizador pelo conjunto da sua carreira. Como muitas destas pessoas estão ainda a trabalhar não lhe chamamos Lifetime Achievement Award. É uma galeria da fama. Comecei uma na Ásia há cinco anos. Isto porque existe uma em Nova Iorque que existe há cerca de 50 anos. O primeiro foi atribuído ao meu avô quando foi permitido regressar aos Estados Unidos para receber o seu Óscar de carreira. Desde essa altura, tem sido atribuído a Tom Hanks, Al Pacino, Scorsese, Meryl Streep, Catherine Deneuve, Audrey Hepburn, entre muitas outras personalidades muito especiais. No entanto, referem-se sobretudo ao cinema ocidental. Mas como o meu avô era sobretudo um humanista e cidadão do mundo, pensei que era uma boa forma de homenagear o seu talento celebrando-o em várias partes do mundo. Por exemplo, existe um em Hong Kong, outro na China. A próxima expansão que iremos fazer será na Índia, em Bollywood, pois é também uma enorme indústria. Por não vermos alguns desses filmes, talvez devido a barreiras de linguagem, não significa que não celebremos todo o seu talento. No fundo, trata-se de tentar juntar todas estas diferentes comunidades.

Seria bom trazer esse prémio também para Portugal… (risos). Não sei se chegou já a visitar o nosso país?

Lembro-me de ir a Portugal, de férias, era eu ainda uma criança. No Algarve, creio eu. Eu gostaria de trazer também o Chaplin Award para a Europa, mas é complicado, pois existem muitos territórios. Mas vamos ver…

(artigo inicialmente publicado em Comunidade de Cultura e Arte)

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