Quinta-feira, Maio 30, 2024
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O Rapaz e a Garça: o país das maravilhas de Hayao Miyazaki

A abertura da 71ª edição do festival de San Sebastian (a decorrer entre 22 a 30 de Setembro) não poderia ter sido mais abençoada: não só pela chuva que visitou esta cidade basca, no sábado passado, mas que não afetou a lotação esgotada da sala Kursaal, mas também pela atribuição dos dois prémios com que abre o festival: o prémio FIPRESCI e o prémio Donostia.

Este ano, a escolha dos membros da crítica internacional (FIPRESCI) para o melhor filme do ano (selecionado daqueles que tiveram a sua estreia mundial desde Julho de 2022), acabou por consagrar o majestoso Fallen Leaves, do finlandês Aki Kaurismaki. O filme apresentado em estreia mundial no passado festival de Cannes, onde venceria o Prémio do Júri, terá estreia nacional a 30 de Novembro pela Midas Filmes. Infelizmente, o cineasta conhecido pela sua relutância em viajar de avião (apesar de ter passado parte do verão na sua casa em Guimarães), acabou por não viajar de Helsínquia.

O outro momento dominante da soirée foi a consagração ao mestre da animação Hayao Miyazaki com a entrega do Prémio Donostia, antecipando a muito aguardada projeção na abertura do festival daquele que tem sido indicado (até pelo próprio) como o seu derradeiro trabalho – O Rapaz e a Garça. Num curto registo gravado, o decano animador agradeceu o “prestigioso reconhecimento” do filme revelado no Japão em meados de Julho passado, sem qualquer campanha de promoção. A sua estreia internacional acabaria por ser, já no presente mês de Setembro, durante o festival de Toronto. Entretanto, com os direitos de exibição já adquiridos para Portugal pela distribuidora Outsider Filmes, com a estreia marcada para de 9 de Novembro.

Mesmo que O Rapaz e a Garça escape ao estatuto de obra-prima a que nos foi habituando, a década de silêncio que o antecedeu (após As Asas do Vento) empurra-nos, tal como Alice, para um novo um ambiente de maravilhas e universos paralelos. Aqui talvez sublinhado pelo desejo do seu autor refletir sobre a totalidade da sua obra, os seus temas queridos e soluções narrativas e visuais, esta dimensão tenha de alguma forma agido como uma certa compressão.

Dito isto, há muito espaço de encantamento em O Rapaz e a Garça e na sua forma de auscultar essa passagem complexa entre a infância e a idade adulta. Aliás, o filme adapta a obra de Genzaburo Yoshino, How Do You Live?, de 1937, por sinal, um livro que aparece no filme quando o adolescente Mahito, no que será certamente uma aproximação ao próprio Miyazaki, o lê num momento central da narrativa. Na verdade, este é mesmo um filme que parece reunir vários dos seus filmes anteriores, facilitando um exercício da memória que nos aparece sempre entre a fantasia e o mundo real.

De certa forma, é como se Miyazaki nos quisesse transportar para um outro mundo, uma outra vida, ligando as suas viagens espirituais com algo que já é mais maduro e está mais além. Até como uma espécie de portal para uma outra vida? Aliás, uma das cenas mais perturbadoras é-nos dada logo na sequência de abertura, em que Mahito procura a mãe, enfermeira num hospital – isto durante bombardeamentos a Tóquio em plena 2ª Guerra Mundial, permitindo até incluir a memória do pai ligado a uma fábrica de armamento, e que nos filme irá transmitir a Mahito um segredo de família.  O encontro crucial ocorre quando a mãe aparece nesse hospital em chamas que acabarão por a sublimar e substituir a sua pele num momento de arrebatadora transformação visual. Esta uma cena que nos fez até lembrar o magnífico Grave of the Fireflies, do seu colega Isao Takahata. É neste momento de perda do corpo, ou da sua transformação, que Miyazaki sugere uma reflexão sobre a mortalidade, como se, de alguma forma, fosse algo que ele próprio já equacionara.

Mas será também esta a dimensão que imprime a marca do autor de A Viagem de Chihiro, Totoro ou Princesa Mononoke, permitindo que a imaginação alcance mais adiante, apenas movida pelo encantamento. Ainda assim, neste filme onde reinam as ideias visuais, a vontade de repensar uma carreira muito vasta e habitada pelos maiores momentos oferecidos em imagem animada. É então a este património riquíssimo que o autor parece render homenagem, convocando a um desfile final personagens, como a garça que dá o nome ao filme, bem como outras aves, como pelicanos e periquitos, mesmo sem serem todas totalmente conseguidas, embora celebrando essa capacidade de voar, um elemento central da imagética de Miyazaki. Caso seja mesmo o seu último filme, O Rapaz e a Garça será seguramente um adequado epitáfio. Se não for, pelo menos, fica aqui uma recapitulação de uma carreira incomparável.

De referir que O Rapaz e a Garça tem já com estreia portuguesa assegurada para 9 de Novembro, pela Outsider Films.

Paulo Portugal
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