Quarta-feira, Maio 29, 2024
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Monster: Kore-eda apresenta as diferentes versões da verdade

O início do festival de San Sebastian navegou, pelo menos do nosso lado, sob o signo do Japão. Depois da abertura com O Rapaz e a Garça, de Miyazaki, foi a ver de recuperar Monster, de Hirokazu Kore-eda, recentemente a concurso para a Palma de Ouro, em Cannes. O cineasta japonês que volta a filmar na sua língua cinco anos depois (Shoplifters, em 2018, que lhe daria a Palma de Ouro – faria ainda The Truth (2019) e Broker (2022).

Importa referir que este é um novo trabalho com o argumentista Yûji Sakamoto, bem como, a derradeira contribuição do compositor Ryuichi Sakamoto, aqui num registo musical que sublinha bem essa camada de significados evocados.

Mosnter é um filme singelo e complexo, abordando nuances sociais e a forma, por vezes ligeira, como lidamos com elas. No caso, um drama familiar a tocar questões complexas como o bullying escolar, a violência infantil, os traumas adultos e a desorganização familiar, bem como a homofobia e até o aproveitamento mediático (temas, aliás, recorrentes num outro filme, a produção francesa Un Silence, de Joachin Lafosse, em competição para a Concha de Ouro). Será, aliás, a essa conjugação de todos eles elementos, aquilo a que poderemos chamar de ‘monstro’, mesmo que a sua aplicação no filme seja mais associada a esse lado de perturbação violência psicológica juvenil.

Em causa, está a acusação da mãe (Sakura Ando) ao professor Hori (Eita Nagayami) de agredir física e verbalmente o seu filho, Minato (Soya Kurokawa). Só que essa dimensão irá ser analisada à luz de diferentes pontos de vista, permitindo que testemunhemos, e façamos a reflexão, de todos esses contornos. Numa primeira parte, fica-se o ponto de vista e a amargura desta mãe solteira que se revolta contra a instituição escolar; passando depois percepção do posicionamento do professor, em que se percebe que se envolveu, acidentalmente, num ambiente que não controla; até um ponto de vista final, dado pelo próprio garoto e o seu amigo especial que nos importará a uma resolução que nos escapara.

Reflectido no filme, que começa até com um incêndio, um pouco como no filme de Miyazaki, é um outro Kore-da que recordamos. No fundo, uma aproximação ao thriller O Terceiro Assassinato, de 2017, com Kôji Yakusho (o protagonista de Perfect Days, de Wim Wenders, ele ganharia este ano o prémio de interpretação em Cannes, no que foi mais um filme de tema japonês iniciar o festival). É então nesta moderação da ideia de lei e justiça, aqui também levada a interpretações correspondentes com uma dimensão individual e humana, em que a dimensão humana acaba por pesar mais do que as singularidades do caso em apreço.

Por aqui se pressupõe que a procura da verdade deve sempre motivar uma avaliação mais profunda. Um pouco como sucede em Monster, pela análise da verdade e das suas diferentes circunstâncias. Ao ser encarado sob esses pontos de vista diferentes, emerge até a dimensão do perspetivismo evidenciada no clássico de 1950, Rashomon, de Akira Kurosawa, também ele um filme também construído a partir de uma estrutura tripartida, como que avaliando o ponto de vista diferente. Ou seja, entre o que aparente ser e o que verdadeiramente é. E o que é Monster verdadeiramente? Um filme simpático e bem desenhado.

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