Terça-feira, Junho 25, 2024
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Manga d’Terra: Basil da Cunha olha para Eliana a cantar 

Basil da Cunha é dos cineastas lusos mais interessantes da atualidade, com presença nas principais montras de festivais, como Cannes (Nuvem, Os Vivos Também Choram, Até Ver a Luz) ou Locarno (O Fim do Mundo), entre muitos outros. Manga d'Terra eleva-nos com o seu poder e o ritmo musical de Eliana Rosa.

Poderá o olhar de uma menina fazer mudar o rumo da história? Pode. Talvez até elevar para outro patamar a narrativa autoral de um cineasta vincada pelo realismo social das zonas mais marginalizadas da Reboleira, introduzindo uma envolvência subtil e a urgência da sensibilidade feminina, determinada em lutar pelos seus sonhos. A mudança poderá ter sido assinalada pelo olhar mágico de Camila, a menina que no ano passado transportou a visão subjetiva da câmara, na curta sinuosa, 2720, percorrendo as vielas e becos esconsos das favelas da Reboleira. Ela que agora contribui com um justo raccord, em Manga d’Terra, ao encarar com o mesmo semblante carregado e penetrante o agente da polícia de intervenção, de shotgun em punho no bairro da Reboleira em mais uma rusga de forças paramilitares.

O sinal fica dado logo aí, nessa cena brutal, a transpirar testosterona. Reforçando até a sugestão alternativa que se segue. E o que se segue vem ritmado pelo embalo musical das mornas e temperado pelo sabor de cachupa, sintetizando o mito do cinema clássico sobre a mulher que chega à cidade disposta a concretizar o sonho de ser artista. Ela é Rosinha, a muito promissora Eliana Rosa, afinal de contas a mulher da vida de Basil, prolongando esse olhar, agora bem mais doce, à procura da sua oportunidade. Mesmo sem ter de se sujeitar a abusos.

É então essa cultura de vida feminina que dá a seiva e estrutura ao filme mais conseguido de Basil da Cunha, o cineasta loiro de 39 anos e olhar marinho. Como que a declarar que a sua identidade está mais perto da Reboleira, junto dessa comunidade racializada, em permanente ameaça de despejo, realojamento e destruição, do que na Suíça onde nasceu. Serve-se da câmara numa osmose perfeita entre a narrativa em construção e as personagens que por ali gravitam sem uma uma ponta de representação.

Depois de um corpus de filmes centrado nas derivas da masculinidade bairrista, entrega-se agora à essência e determinação das mulheres insubmissas que dominam o homem, seja pelo poder da cachupa, do canto, da dança, ou quando os menosprezam, em conversa de cabeleireiro, relativizando o ‘pau’ de supostos machões, rematando que deve ser imagem de Photoshop!

Curiosa é a referência feita ao clássico The Jazz Singer, mais conhecido por introduzir o som musical no cinema, em 1927, com Al Jolson a cantar de rosto maquilhado de negro. Mesmo que o filme seja quase todo de Rosinha que nos emociona com sua doçura profundamente emotiva, mal começa a cantar. Ela faz-nos sentir essa moleza da manga, lá da terra, bem como a saudade e a distância das famílias separadas, da precariedade dos documentos de residência, do visto de trabalho.

Mesmo assumindo o género musical, Manga d’Terra fala de tudo isso, do tão debatido tema da emigração, por vezes tão extremado e, frequentemente, tão mal informado, das comunidades racializadas, embora sem nunca explorar qualquer fio narrativo pelo lado do facilitismo, celebrando antes a enorme vitalidade comunitária e dando voz aos esquecidos. 

Porquê tanto ódio, apesar da beleza à nossa volta?, canta (e emociona-nos) Rosa. Mas é isso! preparem-se porque sabor e o sumo desta manga pode ter um poder transformador.

Manga d'Terra
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