Cerrar los Ojos: Victor Erice de olhos bem abertos perante o cinema

Mesmo sem estar na competição para qualquer prémio, foi o grande filme da 71ª edição do Festival de San Sebastián.

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Fechar os Olhos

Sim, Cerrar los Ojos foi o grande filme(e a descoberta) deste festival. Mesmo que sem ter estado em competição para qualquer prémio. Tal como não esteve, na sua estreia mundial, em Cannes, para desalento de um dos maiores cineastas espanhóis de sempre – o filme passaria apenas em ‘première’. 

Uma lástima para Victor Erice que nos deixou este ano mais um marco do cinema (talvez um dos mais fortes, a história saberá confirmá-lo), num gesto efémero em se que cumpre precisamente meio século sobre o seu primeiro filme O Espírito da Colmeia (1973). Simultaneamente, este filme marca o reencontro com a atriz Anna Torrent, meio século depois do seu primeiro filme, na altura, apenas uma menina de olhos grandes como azeitonas.

Entre os diversos segredos que emaranham ambos as películas, recordamos a majestosa elipse, na altura, que fundia o olhar ingénuo de Anna diante do de Frankenstein com o olhar sabedor de Torrent agora. Ela que dirá mesmo, ‘soy Anna!”, quando sussurrava ‘fecha os olhos’, ao invocar esse espírito de há 50 anos.

Víctor Erice dirige Anna Torrent, em Cerrar los Ojos.

Tal como na Colmeia, sentem-se aqui os prolongamentos narrativos que unem diferentes sequências, espaços e tempos diversos, entre a ficção e a realidade, os racords dos espelhos em forma de colmeia, os espaços habitados por monstros de diferentes épocas. Sejam os monstros da ficção, sejam os monstros políticos da altura. Aliás, este pode ser um filme algo longo, com as suas quase três horas de duração, mas com a particularidade do único tempo que se vive ser mesmo o do próprio cinema.

Cerrar os ojos será, em boa medida, o gesto de condensar este acervo de memórias, de filmes dentro de filmes. Pois é precisamente isso que temos, logo no início, com a procura de um ator, Julio Arenas (Jose Coronado), desaparecido após a rodagem de um excerto de filme de 1990 inacabado alvo (em 2012) de um programa de televisão dedicado a lançar interrogações sobre o (não) sucedido. É esse enigma que o realizador Miguel Garay (Manolo Solo) tenta solucionar no que será também um regresso ao passado, aos seus fantasmas, amores e sonhos perdidos. Em certa medida, uma dimensão próxima da investigação da memória em Citizen Kane, em busca do seu Rosebud, que é o rosto de uma menina oriental. E será por esse regresso ao passado, que é, afinal de contas, o passado do cinema, que se intromete o distribuidor Max Roca (Mario Pardo), conservando com esmero as latas de película desse filmes que será revelado no final, como um momento que nos acerca, de alguma forma, do efeito da memória oferecido em Cinema Paraíso, de Tornatore. 

Curiosamente, com um momento do filme que nos remete ao ‘sur’, o sul do país, o ‘sur’ do seu filme de 1983 (outra vez o 3), dez anos depois, e que poderia até ter sido os mares do sul como o próprio Erice chega a sugerir com a personagem de Arenas, que perdeu a memória e vive num asilo de idosos, ele que vive encerrado num passado aventureiro que só será interrogado ao ver as imagens desse filme ‘recuperado’. 

O realizador numa cena de rodagem, com os atores Manolo Solo e Enrique Coronado (Manolo Pavón).

No entanto, torna-se evidente que este Cerrar los Ojos encerra uma teimosia que parece dizer volumes sobre a atualidade de um universo de imagens em movimento cada vez mais perto até de uma ‘morte’ (mais ou menos inevitável, mais ou menos anunciada) de uma certa maneira de fazer cinema. Pelo menos próxima da materialidade da película bem como dos consequentes procedimentos analógicos. Porque é também um pouco essa ‘morte’ que refere este ‘fechar os olhos’. Sobretudo num filme que lida com o artefacto, com a image manquante, sobretudo com o passado, com as referências tão bem vincadas neste filme – a Josef von Sternberg (ai The Shanghai Gesture/Aconteceu em Xangai!), a Nicholas Ray, a Theodore Dreyer, ao tema musical de Rio Bravo, de Howard Hawks.

Aliás, ao longo dos tempos, dos anos, das décadas, Erice fez um cinema que, a cada altura, sentia que seria aquilo que tinha de ser feito. O seu percurso é vincado. Vejamos, à sucessão de três filmes poderosos – O Espírito da Colmeia (1973), O Sul (1983), O Sonho da Luz (1993), curiosamente, quase todos marcados pela distância simétrica das décadas, o cineasta basco (de Carranza, na Biscaia) regressa de novo ao longo formato, três décadas depois com um fôlego em que parece evidente a vontade de sintetizar, não só a sua carreira, bem como aquilo que é importante para o cinema. Nesse sentido, um filme testamentário (como se disse de Hayao Miyazaki, na abertura do festival)? Por certo, se o cineasta de 83 anos (novamente a proximidade com o número 3) mantiver um semelhante período sem filmar. 

Um outro lado relevante no cinema de Erice é que ele nuca foi um cineasta que se afirmou por um eventual ‘body of work’, por um trabalho contínuo. Aliás, foi o próprio quem afirmou, em Locarno em 2014, “para mim, ser cineasta é um acto existencial, não profissional”, quando ali recebeu um prémio de carreira em 2014, precisamente no ano em que Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa venceu o Leopardo de Ouro no festival suíço. Aliás, a contribuição pessoal para filmes coletivos com Vidros Partidos, aquele em parceria com Manoel de Oliveira e Pedro Costa integrou o projeto Centro Histórico, em 2016, o seu último filme anterior.

Claro que isto até pode ser desmentido por aquilo que filmou ao longo de mais de meio século. Sendo que existe uma filiação de meio século deste filme com O Espírito da Colmeia (1973). No entanto, a bem dizer, com a sua inteira filmografia de 10 filmes, sendo que alguns deles foram contribuições em filmes de vários realizadores. Pois, tal como a história, assim é também o cinema. Algo que Victor Erice teima em recuperar (ressuscitar, mesmo!), mesmo aos 83 anos, como que a segredar-nos que esse cinema é ainda possível. Talvez mesmo até daqui a 50 anos. 

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