Sexta-feira, Maio 24, 2024
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San Sebastian: co-produção portuguesa vence Concha de Ouro com ‘O Corno’

O drama O Corno, dirigido pela espanhola Jaione Camborda, foi o grande vencedor da 71ª edição do festival de San Sebastian, recebendo a Concha de Ouro, o prémio mais importante do festival. No fundo, uma distinção com sabor a efeméride pois marca a estreia de uma cineasta espanhola na conquista desse troféu. Mesmo que seja a quarta vez consecutiva que o prémio principal do festival de San Sebastian é atribuído a uma mulher. “Não podia estar melhor acompanhada”, referiu Jaione na cerimónia realizada no serão deste sábado. Ela que se dirigiu ao júri sublinhando a “importância de quem nos abre o caminho”, ainda que não esquecesse o incentivo às “cineastas que ainda estão por chegar”. Aliás, não deixa de ser relevante esta referência num filme que abre e termina com um parto. Mesmo que o título, o ‘corno’, signifique o aparelho que ajudava à produção ao ato do aborto.

Laia Costa (O Corno)

De assinalar que esta co-produção entre Espanha, Portugal (através de o Bando à Parte, de Rodrigo Areias) e Bélgica, remete-nos ao ano de 1971, na Galiza, mais concretamente na ilha de Aurosa, já em pleno declínio da era de Franco. É aí que uma parteira clandestina se vê forçada a fugir para Portugal por ter ajudado uma adolescente a abortar, permitindo-lhe não desperdiçar a expetativa de uma carreira desportiva a que a radical mudança de vida com um bebé nos braços iria por certo impedir. Trata-se de um filme intenso e belo, em parte fixado pela fotografia envolvente de Rui Poças, nos seus contrastes entre luz e noite, claro e escuro, a rimar com os cambiantes das personagens.

De certa forma, esta temática da fuga ‘a salto’ acaba por conjugar elementos que nos recordam o filme de 1996, de José Fonseca e Costa, Cinco Dias, Cinco Noites, embora representando aqui uma fuga em sentido inverso, de Espanha para Portugal. Ainda assim, sublinha-se a presença muito vincada desse arriscado ‘salto’, sempre atento pelas forças da ordem, de ambos os lados desses regimes autoritários. Sem dúvida, um trabalho consistente de Cambrosa, uma cineasta natural de San Sebastian, embora a viver há vários anos na Galiza, aqui com a sua segunda longa metragem (embora a primeira Arima, de 2019, acabou por ser muito prejudicada pela pandemia).

Valerá ainda a pena referir que os três prémios principais da edição deste ano foram entregues a cineastas femininas. Além da Concha de Ouro, também o Prémio Especial do Júri, o segundo mais importante, atribuído a Kalak, um filme sobre o trauma sexual, assinado e escrito pela sueca Isabella Eklöf, na sua segunda longa metragem.

Já o prémio de melhor realização foi para par de cineastas estreantes de Taiwan, Tzu-Hui Peng e Ping-Wen Wang, aplaudindo o trabalho minimalista resultante em Chun xing / A Journey in Spring. Desde logo, pela forma particular e terna como este duo feminino encara a melancolia de um homem desencantado com a vida depois de perder a mulher.

Hovik Keuchkerian, em ‘Un Amor’

Dentro do plano interpretativo, o júri optou por distinguir um trio de atores: o argentino Marcelo Subiotto e o japonês Tatsuya Fuji, respetivamente, pela sua prestação em Puan e Great Absense, bem como o libanês Hovik Keuchkerian por Un Amor.

Uma conclusão a tirar deste palmarés será talvez a opção do júri por consagrar o pulsar de um cinema novo, algo que fica bem patente pelos principais prémios, a cineastas jovens e com menos experiência, em detrimento talvez de cineastas mais consagrados. Como foi o caso de Cristi Puiu, cujo longo e palavroso MMXX, não foi distinguido. O mesmo sucedendo à interessante evocação da memória colonial em L’Île Rouge, do francês Robin Campillo, ou à entrega da espanhola muito experiente, Isabel Coixet, cujo Un Amor, sobre uma relação nascida de um abuso patriarcal, obteve apenas a apreciação da prestação secundária. De fora, ficaram igualmente, Fernando Trueba, com o seu Diaspararan al Pianista, também uma co-produção portuguesa (Animanostra, RTP) ou Joachin Lafosse, com Un Silence.

Palmarés 71º San Sebastian International Film Festival

O Corno – Concha de Ouro, Melhor Filme

Jaione Camborda (Esoanha)

Kalak – Prémio Especial do Júri

Isabella Eklöf (Suécia)

Concha de Prata Melhor Realização

Tzu-Hui Peng, Ping-Wen Wang (Taiwan)

Concha de Prata (ex-aequo) Melhor Interpretação Principal

Marcelo Subiotto (Argentina) e Tatsuya Fuji (Japão)

Concha de Prata Melhor Interpretação Secundária

Hovik Keuchkerian (Líbano)

Prémio do Júri Melhor Argumento

María Alché e Benjamin Naishtat (Argentina)

Prémio do Júri Melhor Fotografia

Nadim Carlsen Dinamarca)

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