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Dias Perfeitos: assim é a poesia da vida

Wenders regressa ao seu melhor, com uma bela ode visual e musical sobre as coisas simples da vida. Maravilhoso.

Wim Wenders. O nome impressiona e remete-nos para algo que supomos superlativo, uma espécie de zénite do cinema, onde o reino estético da fotografia se funde com o prazer musical e a deambulação das personagens. Enfim, o cinema. Com ‘C’ grande. Espera, mas qual foi, assim de repente, o último filme impressionante da vasta filmografia de Wim Wenders? Socorrendo-nos da contabilidade fílmica do motor de busca imdb, verifica-se um vasto registo que conta com nada menos que 86 entradas! Entre longas de ficção ou documentais, biografias, algumas em 3D (como Anselm, o retrato do pintor e escultor alemão Anselm Kiefer, que veremos já no início do ano), bem como filmes coletivos e muitas curtas e vídeos musicais.

Talvez seja mais fácil registar o último ‘pastelão’, pois Submersos, a sua última ficção, está mesmo ali ao virar da esquina, em 2017. Vamos então com calma. Serve-nos o mesmo motor de busca recuar no tempo e localizar a última longa de ficção digna do seu crédito superlativo. Esse mesmo que motivou este ano a escolha cineasta alemão para o Prémio Lumière, outorgado pelo prestigiado festival de cinema de património que se realiza em Lyon. Teremos talvez de recuar até 1994, em Portugal, quando Wenders foi à procura de imagens e sons, em Viagem a Lisboa. Ou seja, há trinta anos atrás!

Corta! Passamos para Dias Perfeitos, o filme que Wenders escreveu em parceria com Takuma Takasaki, argumentista e produtor com experiência em publicidade. E para se acercar dessa poesia da simplicidade, quem sabe até, numa majestosa proximidade a Yasujiro Ozu, de quem Wim fora (e continuará a ser) um assumido fã. E não só pela admirável homenagem rendida em Tokyo-Ga, em 1985. Na verdade, o filme desenrola-se integralmente no Japão – é, aliás, candidato nipónico confirmado nas nomeações ao Óscar de Filme Estrangeiro.

Esta é uma carta de amor à atenção dada aos pequenos gestos, ao empenho nas coisas. Em boa medida, muito do que nos passa ao lado. Ou ao sorriso de Kôji Yakusho, um nome que merece ser memorizado, e não apenas por ter conquistado o prémio de interpretação em Cannes. Aliás, durante uma boa parte do filme, a personagem apenas expressa o seu monólogo interior e nos aproxima do poder da arte da natureza.

É neste contexto que Wenders intromete uma leitura estética e sonora que nos encaminha (e a ele próprio) para o seu cinema itinerante do início da sua carreira, feito de viagens espaciais e mentais. Embora aqui com um acento algo nostálgico, apetece mesmo acrescentar, analógico das coisas. Pois é um pouco esse saber acumulado que se adorna em Hirayama (assim se chama ele). Desde logo pela música vintage, em cassetes de fita magnética, a fotografia em película, a literatura em papel, em que o universo Faulkner da paisagem americana não será um acaso.

São essas imagens que ficam ‘pintadas’ pela letra, música e memória da seleção cuidadosa, e de bom gosto, de Patti Smith (o sinuoso Redondo Beach, do seu primeiro disco, Horses), Lou Reed a cantar Perfect Day, a música que acaba por inspirar o título, ainda Otis Reading ou o êxtase final com Nina Simone a cantar Feeling Good, como que a oferecer-nos uma recordação subterrânea e contagiante do seu próprio cinema.

Pois o que se sente é que a aventura pode acontecer a cada instante. Seja ao volante de um carro, a admirar as sombras refletidas de uma árvores, ou, porque não, a interação de limpar casas de banho em Tóquio. De certa forma, a satisfação de eliminar os despojos do dia. Mas não é por isso ele sorri. Ele sorri porque tem a disponibilidade suficiente para observar a sua realidade. E registá-la em fotografias que tira com uma máquina (ainda) analógica. E cujas sombras o ajudam a sonhar. Bem vistas as coisas, quando assim é, nada mais é necessário. Ou é?

Dias Perfeitos
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