Solveig Nordlund: “Estava disposta a viver a vida da Revolução” 

O seu filme, Aparelho Voador a Baixa Altitude, de 2002, é exibido esta sexta-feira, no festival de Cinema de Roterdão. A partir de 7 de fevereiro, será a vez do Batalha Centro de Cinema, no Porto. Foi uma iniciativa da Cinemateca e do projeto FILMar, que inclui ainda o restauro do filme Até Amanhã, Mário. A nossa foi uma conversa sobre o cinema. E sobre a vida da Revolução.

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Solveig Nordlund (foto Cinemateca)

Aparelho Voador a Baixa Altitude, é um filme absolutamente singular na filmografia portuguesa. Viaja agora até à Holanda para ser exibido no IFFR – o International Film Festival Rotterdam (que decorre 24 de janeiro a 4 de fevereiro) para aterrar na secção Cinema Regained (https://iffr.com/en/blog/iffr-2023-cinema-regained ), destinada a clássicos e à redescoberta de cinema experimental restaurado. Adquire assim uma vida nova, em cópia digital a 4k, o filme de 2002, de Solveig Nordlund, a cineasta portuguesa de origem sueca com longa e significativa carreira em Portugal. 

Esta adaptação do conto original de J.G. Ballard, escrito em 1975, ambienta-se num universo distópico de ficção científica em que a crescente deformação genética de bebés motiva um alarme que conduz a humanidade à beira da extinção. Curiosamente, Solveig leu o livro quando estava ainda grávida do seu filho, como confessa na nossa entrevista. E terá encontrado o cenário ideal nas ruínas do edifício da Torralta, durante uma edição do Festroia (quando o certame se realizava na península de Tróia, antes da mudança para Setúbal). O filme encerra então uma dimensão feminista assente na liberdade de reprodução como resposta ao autoritarismo. A história assenta no dilema de um casal (Margarida Marinho e Miguel Guilherme) que, após várias tentativas goradas, aceita fugir para um hotel deserto, habitado por criaturas excêntricas, como forma de dar à luz um bebé.

Este é mais um filme integrado no projeto FILMar, assegurando a preservação digitalização e difusão do património fílmico relacionado com o mar. O programa inclui ainda um outro filme de Solveig, Até Amanhã, Mário, de 1993, também ele com uma cópia imaculada, que igualmente tivemos oportunidade de visionar, e que será apresentada no dia 2 de fevereiro, no Funchal.

Depois de As Ilhas Encantadas, de Carlos Vilardebó, ter sido apresentado o ano passado na secção ‘tesouros recuperados’ do Festival Lumière, em Lyon (e com estreia marcada em Portugal para 1 de fevereiro próximo), chega a vez de Aparelho Voador a Baixa Altitude ser igualmente exibido num festival internacional.

Durante a nossa conversa no restaurante da Cinemateca Portuguesa, Solveig falou igualmente dos sonhos de acalentados há 50 anos, durante o período pós revolucionário do 25 de Abril, bem como o importante trabalho coletivo desenvolvido nas cooperativas Cinequipa, Cinequanon e Grupo Zero. Em breve, a cineasta que cumpriu 80 anos iniciará um documentário sobre a (companhia de teatro) Cornucópia. Uma novidade que se confirmou um dia antes da nossa conversa. A descobrir, talvez daqui a dois anos.

Parabéns pela exibição do seu filme Aparelho Voador a Baixa Altitude na secção de cinema clássico no festival de Roterdão.

Sim, passa na secção Redescoberta.

Pois, a Cinema Regained. E com uma cópia nova digitalizada e integrada no programa FILMar. Como encara a Solveig esta autêntica redescoberta do seu filme mais de duas décadas depois?

Devo dizer que fiquei espantada. Até fizeram um cartaz novo para o filme! Isso significa que estão a apostar no filme. Para mim, foi uma surpresa. Mas é ótimo que os filmes sejam vistos. Embora não saiba como é que vai correr. Não sei se há pessoas interessadas em ver o filme…

Modéstia sua. Eu já o vi e está magnífico. A Solveig vai lá estar, claro.

Já viu? Eu não vi. Mas sim, vou estar. E depois vou para Oslo. Sabe, há alguns anos atrás, na Noruega, fizeram até uma projeção com o Aparelho Voador na Cinemateca de Oslo e deram também um concerto numa bomba de gasolina!… Eles ali gostam muito de ficção científica. Espero que corra bem para quem está atrás da iniciativa.

Na verdade, o projeto FILMar destaca até dois filmes seus. Pois, para além de o Aparelho Voador foi igualmente digitalizado o filme Até Amanhã, Mário (1992) destinado a uma futura retrospetiva.

Na verdade, acho que A Lei da Terra (1977) também, porque fui ver recentemente uma cópia. Eles (o ANIM) estão a renovar tudo. Acho ótimo.

Quando surge a ideia do Aparelho Voador, a Solveig já estava a viver em Portugal, certo?

Sim, eu vim para Portugal nos anos 60. Oficialmente, talvez em 1966… Eu conheci o Alberto em 1962, em Londres, onde estudamos juntos na escola de cinema. Depois viemos para cá; depois ele foi a Londres e eu fui também. Depois voltámos a Portugal. Lembro-me que estava grávida na altura. Por isso tinha imenso tempo para ler e comprava aqueles livros que saiam em cada mês com diferentes histórias. Um dos que comprei tinha as histórias de Ballard. 

Concordará então que há, por assim dizer, um certo elemento feminino desta história.

Talvez. Mas eu antes já tinha feito uma outra história sobre o Ballard, na Suécia, o 3 Centauros (Resan Till Orien/Thirteen to Centaurus, de 1962), com pessoas que estão dentro de uma nave espacial e vão para não sei onde (Orion). O filme foi feito num enorme ferry norueguês que fazia a rota entre a Suécia. Eu achei aquela história muito interessante.

De certa forma, sente-se neste filme que existem outras influências no seu cinema…

É possível, apesar de nunca ter feito escola de cinema na Suécia. Na verdade, aproveitei um bocadinho a boleia do cinema português para ter acesso a uma escola de cinema.

Teve até o privilégio de testemunhar esse momento de cinema único que foi o período da Revolução do 25 de Abril e os anos subsequentes.

Sim, foi um momento único. Mas não só no cinema. Na verdade, as pessoas são do tempo em que vivem. É claro que já passaram 50 anos sobre o 25 de Abril e essas pessoas já não são iguais, já não têm os mesmos sonhos, nem os mesmos projetos. O mundo está a mudar. Aquela geração do 25 de Abril viveu uma época de imensas experiências. Sobretudo, porque a guerra colonial foi também um momento único. 

Sim, a ideia de revolução já pairava no ar…

Não foi há muito tempo que percebi que, naquela altura, o estado português não tinha qualquer solução para a situação de um país que vivia uma guerra colonial. Acho até que o país devia ter ficado agradecido aos Capitães de Abril por terem resolvido o problema. Aquilo não tinha solução. Ainda por cima em continentes diferentes.

Acha que agora o Aparelho Voador pode alcançar uma nova audiência – ou a sua verdadeira audiência – visto que, na altura, o filme teve uma divulgação insuficiente?

O filme não teve divulgação porque a produtora (Filmes do Tejo) abriu falência. Nesse sentido, é como se, efetivamente, o filme não tivesse sido lançado. Pois com um lançamento adequado teria tido um outro impacto.

Na verdade, acho até que muito do cinema anterior aos anos 70/80, portanto todo o que acompanha o período do 25 de Abril, mas não só, foi muito pouco visto. Nesse sentido, a oportunidade dada pela digitalização do cinema português, atualmente a decorrer no ANIM, é uma oportunidade para uma verdadeira descoberta do cinema português. Concorda com esta ideia?

Sim, absolutamente. Espero que sim. Até porque o público de cinema está muito modificado. Acho que o tempo da pandemia alterou muito os hábitos das pessoas. Eu percebi isso, recentemente, quando fui ver o filme do (Aki) Kaurismaki, Folhas Caídas. O público para filmes um pouco mais sérios tornou-se realmente mais idoso. Vejo isso cada vez que vou ao cinema. É um público com mais de 60 anos. Por exemplo, o meu filho, não vai ao cinema. Vê o que quer na televisão. Os hábitos mudaram.

Acompanhou o processo de recuperação do filme?

Não ninguém me pediu. Só vou ver o produto final em Roterdão. Mas acho que o Acácio (de Almeida) esteve lá (no ANIM). Curioso é que no caso do Aparelho Voador, a pós-produção foi feita na Dinamarca – era uma coprodução com a Suécia. Foi até um jovem fez um belíssimo trabalho com a luz e os efeitos visuais. Sobretudo aquele fumo de cor que sai do avião. Era algo que já estava bem feito na altura. E isso nem sequer é o Acácio fez. É mesmo um efeito especial.

É incrível também todo o cenário natural, em particular o cenário dos nos edifícios abandonados da Torralta.

Sim, essa foi a razão de ser do filme. Apesar de partir da história curta do marido que olha pela janela e vê na varanda uma rapariga de outra raça. O Ballard adorou o cenário e as fotos que lhe mandei.

Apesar da história ter um elemento de ficção científica há um elemento de tremenda a atualidade que permanece. Como é que vê esse filme com os olhos de hoje?

Confesso quando estava a fazer o filme não acreditei muito na história, mas ela está lá. Na verdade, não é nada impossível, sobre uma sociedade que quer tudo perfeito e nada chega. Acho que podemos pensar nisso hoje. O Ballard via as coisas de uma maneira diferente desde. Por acaso, a última vez que vi o filme acho que foi na retrospectiva que fizeram aqui na Cinemateca. E, no final, lembro-me de pensar: “ah, só agora é que compreendo”.  Na altura, durante a rodagem, até achei que aquilo era um bocadinho invenção. Devo isso à visão do Ballard.

Falemos então do Até amanhã, Mário. A cópia está ótima!

Sim, isso eu vi. Está excelente.

É uma história muito atual, aparentemente na altura dos escândalos de pedofilia na Madeira, certo?

Sim, mais ou menos. Por acaso acho que foi escrito imediatamente antes escândalo ter ocorrido, porque quando estávamos a filmar não sabíamos de nada. Mas havia um cartaz que oferecia qualquer coisa e deixava o contacto: “se estás interessado, liga”. Um dos atores do filme chegou a perguntar se deveria ligar… Aquele que aparece naquela cena com roupa de menina. O filme foi escrito por uma dinamarquesa. Ela teve lá a viver e escreveu aquilo. No início, era para ser uma curta-metragem, mas foi o Henrique Espírito Santo que pegou naquilo e conseguiu criar uma longa. 

Acho que tanto o Aparelho Voador como o Até Amanhã, Mário poderiam ambos fazer uma carreira boa nas salas de cinema. Não lhe parece?

Pois, é verdade. Só que a Cinemateca não se pode transformar num distribuidor. Não pode estar a fazer concorrência com as outras salas. Ou seja, é outra instituição. Como a produtora do filme abriu falência, também não pode distribuir o filme. Na verdade, podia ser eu a distribui-lo. Só que já não tenho energia para isto. Se eu ficasse com o filme teria de o entregar alguém. Logo se verá. Mas também o cinema da época em que fiz o filme, um certo tipo do cinema, também já acabou.

A Solveig alguma vez sentiu uma diferença de atitude no seu trabalho pelo facto de ser mulher?

Não nada. Fazem-me muitas vezes essa pergunta. Sabe, nós somos produtos da sociedade em que crescemos. Eu nunca tive esse problema. Na Suécia, o sistema de educação era muito inovador. As professoras até podiam ser lésbicas e dizer isso abertamente. Eu fui educada num meio feminino. Mas olhe que os homens também eram diretos demais. Lembro-me de um dia num baile, um homem chegar ao pé de mim e dizer: “queres-me ou não me queres? Tens 10 minutos para decidir”. Era assim (risos). Não adorei isso. Mas aqui, realmente, nunca tive problemas. Talvez por ser estrangeira. Em Portugal nunca senti falta de respeito.

Sim, se calhar por ser estrangeira…

Repare, a mulher do Fernando Lopes também queria fazer cinema, mas teve de ficar em casa com montes de filhos, mas a mãe do Fernando Lopes. Realmente a situação das mulheres em Portugal era diferente.

Eu acho que esse período durante e pós 25 de Abril foi até talvez mais importante do que o Cinema Novo. Isto porque trabalharam com uma realidade inteiramente nova.

Sim aquilo foi fantástico. O mundo do cinema naquela altura era uma aventura. Acho que ninguém tinha projeto. Era um modo de vida. No dia 1 de Janeiro de 1980, quando o Luís Miguel Cintra e o Jorge Silva Melo ficaram zangados, decidimos ir para fora. Não estávamos de acordo com o rumo da revolução depois do 25 de Novembro. Lembro-me de perguntarem: “mas o que queres da Revolução?” Eu acho que nós não sabíamos o que queríamos. Eu queria viver como se vivia naquelas cooperativas na Rússia. Estava completamente disposta a viver a vida da revolução. Hoje em dia, quando olho para a Rússia de Putin… Para mim, na minha mente, a Revolução era estar com a agricultura e dizer ‘sim’ a tudo. 

Era sobretudo um trabalho de cooperativa, certo? 

Sim, com a Cinequipa e Cinequanon. E Grupo Zero. Fazíamos coisas pequeninas. Foi até a RTP, o serviço de Educação Permanente, que apoiou o nosso trabalho. Foi uma coisa muito boa. Acho que é material que está a ser recuperado pela Cinemateca e o ANIM. 

Mantém algum contacto com a Suécia?

Pouco. Eu tive um acidente, caí e parti os dois braços. E como não posso conduzir, tenho de vender a minha casa na Suécia. Ainda por cima, onde vivo é na província, onde não se pode viver sem automóvel. Tenho que voltar lá agora para vender a casa. Quero ficar por cá, perto do meu filho.