Kamal Aljafari e o cinema de resistência palestiniano: Esta é a “câmara dos desapossados!”

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Kamal Aljafari: sessão zoom de Berlim para (Indie)Lisboa

Há urgência no cinema de Kamal Jafari. É preciso conhecer a realidade deste cineasta, natural de Ramla, que acordou tarde para o cinema, mas muito a tempo de contribuir para a memória e o arquivo do seu povo. Em grande parte, trabalhando com imagens de arquivo e found footage, recontando a história da sua família e do seu país. Mesmo quando é o próprio arquivo a ser esbulhado por forças colonialistas que usurpam e se apropriam desse passado. Apesar de avisar que “não faço filmes para pôr a Palestina no mapa”, como refere na nossa entrevista captada via zoom, ainda antes de chegar a Lisboa, para realizar uma retrospetiva completa do seu cinema, na Cinemateca, durante o IndieLisboa, entre os dias 23 de maio e 2 de junho, onde estará sempre presente. 

Vi os seus filmes. E devo dizer que fiquei bastante perturbado com o que vi. E acho que muita gente irá partilhar o meu ponto de vista. Sobretudo por essas imagens se fundirem com os tempos que vive, hoje em dia, na Palestina. Como se revivesse o pesadelo da sua própria, e trágica, história. Como vê isso?

Kamal Jafari – Vi ontem A Fidai Filmoutra vez, numa antestreia aqui em Berlim. Fiquei de novo muito perturbado. Tinha acabado de montar o filme em julho passado. E a ver o filme de novo foi chocante porque o padrão histórico que encontrei provou ser verdadeiro. A guerra em Gaza e a matança que é feita diariamente é apenas uma continuação desse padrão. Ou seja, tornou-se muito mais fácil matar pessoas, por exemplo, com o uso de inteligência artificial, tal como toda essa avalanche de bombas que são atiradas para este pedaço de terra. 

Como se estivesse a reviver o passado?

Sim, como se estivesse a fazer um filme para o que ainda vai ser e o que está a acontecer hoje. 

Sim, parece um círculo vicioso…

Muitas pessoas referem-se ao dia 7 de outubro, como um ponto de mudança. Mas a violência que o filme mostra acaba por evocar quase cem anos de história. Começando logo com o Mandato da Palestina (criado com a partilha do Império Otomano, após a Primeira Guerra Mundial, com a administração civil britânica, entre 1920-1948) e o castigo coletivo trazido pelos britânicos para a Palestina, oprimindo a resistência e vergando-a ao seu projeto. Parece que funcionamos, de novo, num loop, embora numa escala mais larga. A catástrofe de Nakba em 1948 (quando os árabes foram vencidos pelas forças judaicas, provocando um êxodo árabe na Palestina) foi algo ainda mais traumático. Costumamos dizer que a Nakba não foi um evento histórico, mas um evento que continua. No entanto, o que tem sucedido nos últimos sete meses é dez vezes pior do que aconteceu durante a Nakba. Sobretudo no que diz respeito ao número de mortos. 

Aparentemente, sem qualquer posição oficial pela comunidade internacional. O mesmo se passa na União Europeia. De certa forma, um posicionamento diferente quanto ao que se passa na Ucrânia. Como encara esse ponto de vista internacional em relação ao que se passa na Palestina?

Devi dizer que se tem passado um longo processo de desumanização do povo palestiniano. Isso significa que, quando chegamos a este ponto, em que tantas pessoas estão a ser mortas em Gaza, isso já não tem um grande efeito nestes governos. De outra forma não é fácil de explicar a razão pela qual se valoriza menos a vida destas pessoas do que outras, sejam elas ucranianas ou em qualquer outra tragédia que aconteça na Europa. Porque o mesmo se poderia dizer do que acontece hoje no Sudão e ninguém fala nisso. Ou no Iémen, com a invasão saudita. Portanto, existem visões contrárias. É como se existisse uma lealdade europeia e americana em relação ao projeto de colonialismo israelita. Como se fosse uma continuação do colonialismo europeu do século XIX. Felizmente nem todos os governos têm o mesmo posicionamento. O posicionamento do governo espanhol é diferente do alemão ou do francês. 

E o que me diz à solidariedade que existe hoje entre os meios universitários um pouco em todo o mundo em solidariedade com a causa Palestina? Acha que isso poderá trazer alguma mudança?

Isso é algo muito revolucionário. Todo esse movimento que está a aconteceu com a juventude, pois não aceitam esse status quo, em que se menosprezam certas pessoas e se ignora o seu sofrimento. Isso é algo muito bom. São boas notícias sobre a humanidade. 

Sobretudo porque essas pessoas estão a estudar na universidade, ou seja, desenvolvendo ideias saudáveis e não filtradas por outras agendas políticas.

É algo bastante surpreendente. Nós estávamos a par de pequenos grupos de solidariedade, em várias universidades americanas. E grupos em que os seus membros são palestinos, judeus, negros… Basicamente, todos os ‘outros’. Agora tornou-se num movimento enorme, englobando universidades muito importantes, como a Columbia, Harvard…

Em Portugal o movimento também já ganhou bastante força.

Sim? Ainda não sabia disso já estava a acontecer em Portugal. É algo muito extraordinário. Estes aliados são muito importantes, porque são muito universais e humanos. É esse o centro do problema. Isso significa que as coisas estão a ficar mais claras e definidas. É talvez essa a única coisa boa que vem do massacre que acontece em Gaza. Espero que isso acabe em algum momento porque o sofrimento é insustentável.

Relativamente ao seu último filme, A Fidai Film, fiquei chocado com o episódio do saque do Arquivo Nacional da Palestina. Algo que funciona quase como um apagão do passado de um povo, da sua memória. Mas também como inicia o seu filme, justamente feito a partir de material de arquivo, com imagens marcadas pela censura. Como avalia este gesto?

Acho que vai na sequência da guerra com a Palestina. Algo que incluir a usurpação da terra, ao longo do país, mas também o esbulho de imagens fotográficas, de filmes. Basicamente, tudo o que possa constituir uma prova da existência do povo da Palestina. Mas isso aconteceu por diversas vezes. Desde logo, com a ocupação, em 1948, das grandes cidades, como Jaffa ou Haifa; foram saqueadas casas, estúdios de fotografia, instituições. Todos os arquivos de jornais foram saqueados. 76 anos depois de 1948, todos esses documentos estão fora do acesso ao povo palestiniano. Então, o meu filme é uma tentativa de trabalho artístico, se quiser, tentando lidar com essa ideia, usando o cinema como uma forma de autoexpressão para exprimir esses ideais, bem coo de não poder possuir um arquivo ou de possuir as suas próprias imagens. Nesse sentido, o tipo de prática que faço, a que chamei ‘a câmara do desapossado’, procurando colecionar tudo o que puder, mesmo que isso só exista nos arquivos das instituições israelitas, e criando a minha auto-narrativa a partir destas imagens. Podem ser imagens roubadas, como no caso do caso do Centro de Pesquisa Palestina, outra vezes, imagens que foram feitas pelos próprios colonos, onde consigo compor a minha própria imagem, focando-me no cenário, em certos elementos. Com estes elementos crio uma nova narrativa, a que chamo ‘a câmara dos desapossados’.

É muito poderosa a sequência em que mostra o que vai acontecendo na Palestina, cortando para um plano romântico de um casal israelita na praia, sofre de um paraíso sem fim em que quase desejam morrer… Como um extremar de dois mundos antagónicos. Tomando como certo que todos somos contra qualquer tipo de antissemitismo e, sem qualquer dúvida, sofremos com o que sucedeu na Europa em certo momento. Mesmo assim, como será possível uma coisa semelhante acontecer? Menciono apenas o final do seu filme aquela cena, captada por acaso, em que um grupo de crianças palestinas brincar e acaba por ser molestada pela reação dos dois militares, em missão de vigilância, fingindo devolver a bola aos garotos, apenas para os ameaçar com o cassetete… É uma cena de uma violência branda insustentável! 

Claro, esse discurso de antissemitismo e o sofrimento do povo judeu na Europa é uma discussão que acontece ainda. Por exemplo, na Alemanha, esquecem-se que não foi a culpa dos judeus que isso acontecesse ao povo judeu. Foi um problema europeu. Ser anticolonialista e antissionista nada a ver com ser contra judeus per se. É chocante como esta narrativa se tornou na narrativa dominante. Por exemplo, muitos ativistas nas universidades americanas, são judeus. Mas não são sionistas. Esta estratégias foi bem construída por Israel. 

Quer explicar?

Há dez anos, decidiram usá-la como arma principal para quem se opusesse à ocupação, contra o racismo, contra muito do que tem sido importo. Chegámos a um ponto, num momento crítico da História, em que falam em matar toda a gente em Gaza. 

Essa seria a ‘solução final’!

Exatamente. Foi essa a retórica dos nazis na Alemanha. No início, tornaram a vida extremamente difícil aos judeus, tiraram-lhe os seus bens e propriedades; foram racistas, atacavam-nos em todo o lado; eram expulsos das universidades e dos hospitais; finalmente, chegaram à ideia de ‘acabar com o problema’. Juntando pessoas em campos e matando-os. Quando olhamos ao que se passa em gaza agora, a retórica e a linguagem usada por algumas pessoas no atual governo e o discurso desta sociedade que se tornou se extrema direita, é assustador, porque nos faz pensar nisso. Não têm vergonha em ter discussões dessas na televisão pública, onde dizem ‘devíamos ter morto 100 mil pessoas, logo no primeiro dia do ataque’. É assustador. Enquanto os governos ocidentais, em particular, o governo americano, não acabarem com este problema, vão continuar, pois acham que têm todo o poder para continuar. No fundo, acabarem aquilo que começaram em 1948. Isso é muito assustador.

E apenas três anos após uma guerra mundial devastadora…

Exatamente. Por isso, o que se passa na Palestina está muito ligado com os crimes cometidos pela Alemanha na Europa. O que se passa hoje tem de ser visto e ligado à história europeia. 

Até porque o discurso parece ser o mesmo do populismo, algo que está a acontecer na Europa e nos Estados Unidos de uma forma viral, nesse sentido, foram de qualquer julgamento de justiça social. 

Sem dúvida. Ao trabalhar em cinema, acabei por questionar que papel poderemos desempenhar enquanto artistas e cineastas. Como poderemos ter uma voz. Para mim, o cinema sempre foi uma forma de expressão, uma ferramenta para expressar os meus sentimentos e de onde venho. Vivo fora da Palestina há 20 anos, mas esta forma de acabar com o problema pela violência é chocante. E até os nazis na Alemanha falharam. Não é uma solução para nada. 

Fale-me do passado da sua família em Ramla e como acabou por descobrir o uso da uma câmara para registar o que seria também a memória e também o reviver das imagens como uma forma de arte?

Eu nasci em Ramla, numa família que, em 1948, viu a maior parte da sua família ser expulsa da cidade; o mesmo se passou do lado da minha mãe, em Jaffa. Na verdade, os palestinianos, após 1948, numa cidade como Ramla ou Jaffa, tornaram-se numa pequena minoria. Para ter uma ideia, até 1928, haviam cerca de 30 mil habitantes, mas depois da guerra apenas algumas centenas. No caso de Jaffa, cerca de 100 mil e apenas 2 mil depois da guerra. Então, sempre tive este sentimento de ser um estrangeiro na minha terra, porque não somos aceitas e reconhecidos, além de sermos uma minoria no nosso próprio país. É algo devastador do ponto de vista psicológico. 

Quando foi que chegou ao cinema?

Eu cheguei ao cinema bastante tarde. Fui estudar em Colónia, na Academia de Arte, quando já tinha 26 anos. Por várias razões acabei por considerar o cinema como uma ferramenta com que gosto de me exprimir. The Roof (2006) foi o primeiro filme que rodei na Palestina, com a minha família: Depois, lentamente, fui trabalhando com material de arquivo e found footage, como em An Unusual Summer (2020), em que uso a câmara de vigilância instalado pelo meu pai, porque alguém partiu o vidro do carro. Nesse sentido, a composição de imagem tornou-se numa ferramenta importante de expressão. Desde logo, do ponto de vista cinemático, poético e também político. Tem. Sido um processo longo que me trouxe até ao que faço hoje.

Nessa altura em que estava a ponderar fazer cinema, conhecia o cinema que era feito na Palestina, ou por palestinos, como Elia Suleiman?

Sim, claro. Quando comecei, o primeiro filme do Elia Sumeilman, Chronicle of Disappearance (1996), foi uma inspiração para mim, porque mostrou uma forma de fazer filmes, com a sua própria família e as próprias experiências. Foi algo novo a acontecer na Palestina. 

Regressando ao saque dos arquivos, pergunto se será possível (ou foi possível para si) aceder aos arquivos, enquanto material que pudesse usar ou era algo inacessível?

Está tudo completamente inacessível. Todo o material que usei estava na posse de israelitas que tiveram acesso aos arquivos; os palestinianos não têm qualquer acesso aos arquivos. 

Mesmo que pertença à vossa memória e que tenham sido desapossados…

Sim, totalmente. É por isso mesmo que uso a expressão ‘a câmara dos desapossados’, talvez para criar algo novo. É uma tentativa para trabalhar com imagens, com found footage, para narrar os sentimentos da história. 

Essa é uma metodologia que vai continuar a usar num trabalho futuro?

Na verdade, estou a pensar fazer um filme de ficção o previsto para o próximo ano; estou atualmente num processo de financiamento do projeto. Mas estou ansioso para voltar a filmar. Quando fiz o meu primeiro filme com material found footage, pensei que seria a única vez que o faria. No entanto, tem passado de um filme para outro. Fiz dois filmes. Longos com arquivo e duas curtas. Irei fazer algo no futuro, mas tenho de ter uma ligação pessoal com o material. Algo que me ligue. Mas agora farei uma pausa. 

Quando começará a gravar?

Vai acontecer no próximo ano. Já escrevi o guião, uma história que se passa em Jaffa nos dias de hoje. Estava à espera de poder filmar este ano, mas a situação é demasiado perigosa. 

Já tem um título para o filme?

O título ver ser In the Museum of Days

Então ligado ao seu último filme, pois é um dos subtítulos…

Sim, é verdade. De certa forma, relaciona-se com o que fiz até agora. Até porque vou trabalhar com não atores, com a comunidade palestiniana em Jaffa, descrevendo a vida de uma comunidade que agora está transformada num gueto. Queria filmar lá, mas poderia fazê-lo em outro lugar, porque não é seguro. Estou a tentar criar uma solução para combinar uma rodagem lé e em outros lugares onde seja semelhante, bem, como algumas partes em estúdio. Estou ainda no processo de encontrar a linguagem certa d filme. Sobretudo, devido à situação que se vive hoje em dia.

Imagino que esse processo tenha algum desenvolvimento nos festivais em que possa participar. Por isso pergunto, como foi a experiência, este ano, no Visions du Réel (na Suíça) e o que espera que suceda em Lisboa, no IndieLisboa?

A experiência foi muito boa. E claro que há muita curiosidade com o que se passa na Palestina, devido à situação que vivemos. Acho que também em Portugal as pessoas estão com vontade de imagens diferentes e alternativas. Algo que não está disponível no cinema mainstream. É aqui que o cinema e a arte podem assumir um papel diferente. Estou com muita vontade de partilhar o meu trabalho e falar com as pessoas. Finalmente, poder partilhar a minha paixão pelo cinema e pela arte. Não faço filmes apenas para colocar a Palestina no mapa. Quero partilhar o meu interesse pela arte e o cinema com as pessoas em Portugal.

Diria que, ao longo dos anos, e quase em toda a sua carreira, um dos cineastas que mais vocalizou a causa palestina foi Jean-Luc Godard. Como vê o seu cinema dentro da história do cinema e da perspetiva que se relaciona com o seu país?

Godard foi um dos poucos que compreendeu e visitou a Palestina, ainda nos anos 70, os campos de refugiados. Filmou Aqui e Algures (1976, juntamente com Anne-Marie Miélville) e continuou a referir-se ao povo palestiniano ao longo do seu trabalho.

Mesmo no seu último filme, O Livro da Imagem (2018)…

Exatamente. Acho que ele foi um dos poucos que foi leal a falar da Palestina. E ligando a Palestina à história da humanidade e à história europeia também.

Será possível terminar a nossa conversa com uma nota positiva? Perguntava-lhe o que acha que poderia ser considerado positivo acontecer neste momento no seu país?

A primeira coisa que deve acontecer é, realmente, um cessar-fogo. Para que as pessoas possam ter tempo para fazer o luto dos seus mortos. E encontrar comida e existir, de alguma forma. Mas para acabar este projeto colonial, não há maneira de fugir. Quando mais esperarmos pior se irá tornar. Tal como tem ficado provado nos últimos sete meses. Espero então, como já disse, que este grupo de jovens ajude, eventualmente, a influenciar os governos do mundo. 

Eu acho que o preço da vida humana não pode ter mais do que outra. 

Completamente. Mas mesmo que esta guerra acabasse hoje, todas estas mortes, milhares de crianças, entre mortos, feridos. É um desastre! Não é nada que se possa curar. É triste. Pois, mesmo quando as guerras acabam, nós ficamos com as vítimas…

Sim, o espaço vazio.

O espaço das vítimas e das pessoas que pagaram o preço.

Muito obrigado pelo seu tempo. E felicidades.