Há filmes que habitamos partindo da mesma naturalidade com que as personagens encaram e usam esse espaço. Calle Málaga, da marroquina Maryam Touzani (que assinou também o aclamado O Azul do Cafetã, 2022), inscreve-se precisamente nessa linhagem. Revelado no último Festival de Veneza, este é um filme sobre o valor do passado, da memória e daquilo que nos une, reforçando ainda o peso da crescente afirmação do cinema magrebino e de origem árabe.
A tal “calle” Málaga corresponde a um espaço de comunhão entre María Ángeles (Carmen Maura), uma espanhola independente de 79 anos, e os comerciantes locais dessa rua, em Tânger — com essa discreta ligação colonial — onde sempre viveu. Aliás, um dos aspectos mais sólidos do filme reside precisamente na entrega abnegada de Maura: não nos lembramos de a ver assim, cheia de vida. Nem nos filmes de Almodóvar.
De um momento para o outro, o quotidiano perfeitamente estabelecido desta mulher madura é alterado pela chegada da filha (Clara Etura), que apresenta a iminente venda da casa de família como um dado adquirido (pois é o seu nome que figura no registo predial). Em causa está a necessidade financeira da em recompor a sua vida em Madrid. Incapaz de viver sem o seu espaço — as memórias e o recheio, entretanto vendidos —, María acabará por tentar recuperar partes dessas relíquias, como um velho gira-discos e alguns álbuns antigos. Nessa deriva, aproxima-se de um antiquário, Absalom (Ahmed Boulane), que valoriza objectos antigos e até a possibilidade de um despertar da sensualidade.
Apesar de todas as nuances, Calle Málaga pisca o olho a uma suave nostalgia do passado o prazer de não abandonar os lugares e os objectos feitos de memória. Ora este sentimento despertou-nos a recordação de um filme que habita um território semelhante — The Loneliest Man in Town, assinado pela dupla austríaca Tizza Covi e Rainer Frimmel, descoberto este ano em Berlim (e igualmente exibido no IndieLisboa), sobre um músico de blues reformado forçado a abandonar a sua casa e com um dilema que, diríamos, semelhante. Maria e Al Cook teriam tudo para ser bons amigos.

Independentemente de eventuais comparações, o que conta é a nota inesperada com que a realizadora magrebina celebra a recusa em reduzir a vida ao declínio. À beira dos 80, María afirma a teimosia de uma energia partilhada com os outros e com os lugares, e até de uma intimidade sem idade que nos cativa. Mesmo quando previsível, o filme não deixa de ser envolvente; e quando o desejo se afirma no presente — sem memória, mas com corpo —, nunca deixa de nos desarmar. Sustentado por uma das melhores prestações de Carmen Maura. Ela que jamais poderia ser considerada a mulher mais solitária do mundo.











