Lee Chang-dong, Radu Jude, Tsai Ming-liang e Bruno Dumont, passam na Tabakalera, além da performance audiovisual de Albertina Carri.
A Zabaltegi-Tabakalera, uma das mais secções livres e heterogéneas do Festival de San Sebastián, apresenta na 74.ª edição um programa de 22 títulos que cruza diferentes geografias, gerações e formas cinematográficas. Organizada pelo Festival de San Sebastián em colaboração com a Tabakalera – International Centre for Contemporary Culture, a secção reúne 13 longas-metragens, sete curtas, uma média-metragem e, pela primeira vez, uma performance audiovisual fora de competição.
Mais do que uma secção de descoberta, Zabaltegi-Tabakalera afirma-se novamente como um espaço de circulação entre diferentes territórios do cinema contemporâneo. O programa reúne filmes provenientes de Cannes, Berlim, Veneza, Roterdão, Toronto, Locarno e Cinéma du Réel, colocando lado a lado cineastas de reconhecida trajectória, como Lee Chang-dong, Radu Jude, Tsai Ming-liang ou a dupla Tizza Covi e Rainer Frimmel, e realizadores emergentes.
A abertura ficará a cargo de Pedro en el país, de María Alché e Benjamín Naishtat, uma estreia mundial construída em torno da extraordinária vida de Pedro Catella, marcada por alguns dos principais acontecimentos políticos da América Latina da segunda metade do século XX. A escolha dos realizadores não é estranha à história recente do festival: ambos participaram anteriormente na competição oficial, tendo Naishtat recebido a Concha de Prata de melhor realização por Rojo e Alché o Prémio Horizontes por Familia sumergida.
Entre os títulos seleccionados encontra-se também A veces me entra tristeza, otras veces rebelión, da argentina María Aparicio, apresentado depois da estreia nas Giornate degli Autori, em Veneza. O filme acompanha Eva, uma mulher argentina que permanece temporariamente em Madrid e que conhece um historiador interessado na figura de Juan Bialet Massé e nas lutas dos trabalhadores argentinos.
A relação entre cinema e memória surge, aliás, como uma das linhas particularmente interessantes do programa. Em Plan contraplan, Radu Jude e o historiador Adrian Cioflâncă partem de duas séries fotográficas realizadas na Roménia comunista: as imagens captadas pelo jornalista norte-americano Edward Serotta entre 1985 e 1987 e as fotografias secretamente realizadas pela polícia política romena enquanto o seguia. Quarenta anos depois, a montagem das duas perspectivas produz um insólito jogo de shot/reverse shot entre quem fotografa e quem vigia.
Também With Love and Rage, de Bojina Panayotova, recupera imagens de arquivo para regressar a uma manifestação de milhares de mulheres junto ao Pentágono, em 1980. O filme cruza arquivos, testemunhos, vozes e canções, transformando a documentação de um acontecimento histórico numa reconstrução de uma voz política colectiva.
Mas é na presença de Albertina Carri que esta relação entre cinema, arquivo e memória ganha uma dimensão particularmente explícita. Cine vivo: un artefacto, apresentado fora de competição e organizado pela própria Tabakalera, combina leitura de textos do livro Cine vivo, dedicado ao cinema, à memória, aos arquivos e às formas de criar e ver imagens e sons, com uma intervenção sonora ao vivo de Paloma Peñarrubia. A proposta inclui ainda a exibição de Cine puro, construído a partir de imagens cinematográficas danificadas por fungos até ao ponto de fazer desaparecer as imagens originais.
A própria descrição de Cine vivo apresenta-o como um objecto mutante — simultaneamente filme, performance e livro — que atravessa diferentes disciplinas e pensa a decomposição da matéria como condição de transformação e sobrevivência. É uma escolha particularmente significativa para uma instituição como a Tabakalera, onde a programação cinematográfica se cruza com as práticas contemporâneas e com uma reflexão mais ampla sobre os dispositivos, os materiais e a memória das imagens.
Entre os nomes mais reconhecidos da selecção está Lee Chang-dong, que apresenta Ga-neung-han Sa-rang / Possible Love, depois da passagem por Veneza e Toronto. O realizador sul-coreano regressa assim a San Sebastián, onde já havia apresentado Heartbeat, em 2022.
A secção inclui ainda The Loneliest Man in Town, de Tizza Covi e Rainer Frimmel, que regressam aos actores não profissionais e aos ambientes naturais para acompanhar a vida frágil de um músico de blues envelhecido, confrontado com a demolição da casa onde vive. No centro do filme está também uma questão de memória: Al Cook vive rodeado de livros, cassetes de vídeo e discos de vinil, vestígios materiais de uma vida passada que é progressivamente ameaçada pela perda do espaço onde esses objectos sobrevivem.
O programa prolonga esta atenção ao arquivo e à memória em diferentes direcções. Jaleos, de Isaki Lacuesta, filme de encerramento e estreia mundial, utiliza materiais de arquivo e uma estrutura fragmentária e polifónica para construir uma história do flamenco, relacionando-o com a modernidade, a cultura popular e a política. O filme propõe, nas palavras da apresentação oficial, uma ideia de flamenco “impuro”, em permanente diálogo com o mundo.

Entre os títulos que reforçam a dimensão internacional da competição está também Les Roches rouges (Red Rocks), o novo filme de Bruno Dumont, realizado em coprodução entre França, Portugal, Itália, Espanha e Qatar. O filme, com produção portuguesa da Rosa Filmes, de Joaquim Sapinho, teve a sua estreia mundial na Quinzena dos Realizadores, em Cannes. A presença de Dumont acrescenta à competição um dos autores mais singulares do cinema francês contemporâneo e reforça, simultaneamente, a presença portuguesa numa edição que continua a revelar novas propostas à medida que a seleção é completada.
A dimensão geográfica da secção é igualmente ampla. O programa inclui, entre outros, Tristan Forever, de Tobias Nölle e Loran Bonnardot, situado na remota ilha de Tristan da Cunha; Weichen (Dust), de Tsai Ming-liang, filmado em San Sebastián e centrado na figura recorrente do Walker; Lejos de los árboles, de Meritxell Colell Aparicio; Les Roches Rouges, de Bruno Dumont; e vários filmes de curta duração de autores de diferentes origens.
Com a excepção da performance de Albertina Carri, todos os títulos concorrem ao Prémio Zabaltegi-Tabakalera, atribuído por um júri especialmente constituído. O prémio tem um valor de 20 mil euros, repartido entre o realizador e o distribuidor do filme em Espanha.
O encerramento da secção caberá a Jaleos, de Isaki Lacuesta. Entre a estreia mundial de Pedro en el país e a viagem pelos arquivos do flamenco de Lacuesta, passando pelo cinema de Lee Chang-dong, Radu Jude ou Tsai Ming-liang e pela performance de Albertina Carri, Zabaltegi-Tabakalera confirma assim uma ideia de festival que não depende de uma definição rígida de cinema. É, antes, um lugar de passagem entre filmes, arquivos, memória, performance e formas contemporâneas de olhar para as imagens — precisamente onde a programação da Tabakalera encontra uma das suas funções mais interessantes dentro do festival.









