Radu Jude é um dos realizadores mais criativos, provocadores e insubmissos do cinema europeu contemporâneo. Depois de Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo (2023) e Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental (2021), Urso de Ouro em Berlim, regressa com Dracula – pouco depois de Kontinental’25 (dos 3 filme rodados em 2025 – o outro é a curta Little Poems in Prose). Sim, um filme que parece querer testar os limites da nossa resistência — e a possibilidade de ainda nos surpreendermos.
Aliás, era já isso um pouco que sucedia no filme de 2021, em pleno confinamento, quando entrevistamos o realizador romeno, apenas dois dias antes de receber o Urso de Ouro da Berlinale, para um filme que “não deixa ninguém numa posição de distância segura”. Pois bem, Dracula leva essa provocação ainda mais longe: já não se trata apenas de atacar o espectador, mas de o confrontar com uma cultura visual que parece ter perdido os seus próprios limites. Entre a liberdade e o excesso, a crítica e a autossabotagem, Jude continua a recusar um cinema que nos deixe tranquilos.
Vá lá, há coisas piores do que começar um filme com Vlad, o Empalador, quando proclama: “Sou Vlad, o Empalador, chupem-me a piça!” – isto em repeat até ao momento em que nós próprios já aprendemos a dizer esse impropério romeno. Sim, aí já percebemos que o mau gosto está apenas a aquecer. Estamos perante um filme que podemos adorar odiar. Ou desistir de tentar perceber o que raio está a acontecer.
Tratando-se de Jude, a provocação não surpreende. Um realizador em crise criativa quer fazer um filme sobre Drácula, mas parece ter ficado sem ideias. Acontece aos melhores. Que fazer? Perguntas à inteligência artificial. E pedes-lhe qualquer coisa super comercial. O resultado é um carnaval audiovisual de quase três horas, entre o musical galhofeiro, o sketch pornográfico, a comédia de terror e a alucinação digital.
Seguem-se capítulos, histórias e experiências visuais que parecem obedecer aos caprichos de uma máquina encarregada de produzir imagens sem parar. Corpos deformados, ereções, rabos, pilas e conas (assim mesmo, como é dito no filme): tudo serve, desde que o espectador não tenha tempo para respirar.

Mas será que Jude está apenas a divertir-se à nossa custa? Ou estará a usar a estupidez para pensar a estupidez, transformando-a arma de arremesso contra a cultura que a produz?
Dracula insiste, ad nauseam, na brutalidade de fazer cinema com inteligência artificial. As imagens são deliberadamente grotescas, os corpos derretem-se e a anatomia humana obedece a leis que nem a medicina nem a física reconheceriam. Só que o filme não se limita a denunciar as limitações da tecnologia. Esta estética de segunda categoria espelha precisamente a cultura que transforma tudo em conteúdo, mercadoria e matéria-prima para uma reciclagem infinita.
Mas a questão é também política. Aborda-se o fascismo contemporâneo, a brutalidade capitalista e a degradação do discurso público que contaminam este pesadelo digital. Drácula é, afinal de contas, a figura perfeita para uma economia da apropriação: um parasita que sobrevive sugando a vida dos outros. A inteligência artificial alimenta-se de imagens alheias; a indústria cultural recicla histórias; o capitalismo suga o trabalho e a atenção. O próprio filme parece querer sugar-nos a paciência.
Jude não se fica pela IA. A História surge, como sempre nos seus filme, como território de apropriações e confrontos improváveis, enquanto a Roménia contemporânea se transforma num postal turístico atravessado por fantasmas políticos e culturais. Murnau, Coppola, Spielberg, Chaplin e outras figuras da história do cinema e da cultura são convocados para este baile de fantasmas. A cinefilia torna-se arquivo disponível para novas montagens, citações e profanações.
A referência a Nosferatu, de Murnau, evoca uma das mais célebres apropriações da história do cinema: a adaptação não autorizada de Drácula, de Bram Stoker. Já Coppola conduz-nos ao território dos direitos de autor. Quando a recriação directa encontra obstáculos, a IA oferece uma solução maliciosa: produzir uma versão grotesca e sexualizada daquilo que não se pode simplesmente reproduzir. A reverência cinéfila dá lugar à paródia. Enfim.
É também a própria crítica que Jude parece querer exorcizar. A presença de Neil Young, crítico britânico transformado em opinador cinéfilo, reforça esta dimensão autorreflexiva. Entre referências a Sergio Leone e Werner Herzog, o filme pergunta se ainda conseguimos pensar o cinema fora dos seus códigos de legitimação. E até se a crítica não será apenas mais uma personagem neste circo.
O problema é que nem todas as histórias justificam a sua existência. A acumulação desafia-nos a paciência, a provocação ameaça transformar-se em fórmula e a liberdade formal corre o risco de se confundir com ausência de seleção. Ao imitar uma cultura de estímulos incessantes, Dracula arrisca reproduzir o esgotamento que denuncia. A atenção do espectador, já treinada pelo TikTok, é continuamente solicitada, interrompida e desviada.
Mas merecemos alguma coisa melhor? Se a cultura digital nos inunda de lixo visual e a política se entrega cada vez mais ao espectáculo, será que podemos exigir ao cinema que nos salve? Ou estaremos condenados às imagens que a nossa própria cultura merece?

A ironia ganha outra dimensão quando lembramos que, entre os produtores de Dracula, está o brasileiro Rodrigo Teixeira, figura de relevo na produção e no financiamento cinematográfico internacional, associado a filmes como Chama-me Pelo Teu Nome (2017), do Luca Guadagnino e a sensação carioca dos Óscares, Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles. Uma presença que introduz uma curiosa tensão entre as engrenagens da indústria e o delírio deliberadamente anticomercial de Radu Jude.
Dracula não responde. Prefere continuar a provocar, oscilando entre a resistência e a rendição à lógica do excesso. É uma espécie de Häxan do século XXI: um filme-ensaio de terror grotesco sobre as imagens que nos assombram e a cultura que insiste em produzir os seus próprios monstros. E, mesmo que, no final, nos devolva a um realismo inesperado, como que a pedir-nos desculpa. Mas valeu a experiência, boy!
Olha, um filme para o Halloween. Convenhamos, não se podia pedir muito melhor. Ou pior. Pois este é (mesmo) o filme que merecemos!









