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San Sebastian: sim, andam fantasmas por aqui…

Mis muertos tristes’, ‘Krux’ e ‘Tangles’ apresentam um cinema que estabelece uma ligação com o além. Pois, é verdade, os fantasmas andam à solta por Donostia.

I see dead people. A frase-chave de O Sexto Sentido, de M. Night Shyamalan (1999), parece estar bem viva em San Sebastián. O chileno Pablo Larraín regressa ao festival com uma história de fantasmas, Mis muertos tristes, apresentada em competição. Curiosamente, estabelece uma evocação com Ghost Song, de Fatih Akin, já aqui comentado. Se este procurava nos mortos uma possibilidade de permanência do amor, Mis muertos tristes parte também da presença dos mortos para construir uma história sobre a morte, a memória e os laços familiares.

‘Mis muertos tristes’, de Pablo Larraín

Ema, uma médica recém-reformada, consegue vislumbrar, em repeat, os derradeiros momentos dos mortos, como uma espécie de chamamento. Justamente quando acaba de perder a mãe e é forçada a reformar-se, percebe como a sua relação com esse mundo sobrenatural se altera com a chegada da sobrinha Julie e também com o trauma provocado pelo assassinato de três adolescentes num bairro de Buenos Aires. O filme parte do universo de Mariana Enriquez e cruza o fantástico com a violência social e familiar.

O início é, de facto, interessante. Há qualquer coisa de cinematográfico nesse diálogo espiritual, quase dentro do género do terror, que parece abrir possibilidades para o filme. No entanto, algo se vai perdendo, levando-nos até a recordar que o filme começou com aquele ícone tão conhecido do N majestoso que se corporiza no logótipo da Netflix. Pois claro: depressa percebemos que essa informação acaba por tomar conta da narrativa, talvez menos numa sala de cinema do que numa sala particular que dá espaço à minissérie de quatro episódios que está na sua origem.

O mais curioso é que esta transformação se torna particularmente visível quando se vê o filme numa sala como o Kursaal 1, diante de mais de mil pessoas. O dispositivo é de cinema, mas a narrativa começa a comportar-se como televisão. E, a certa altura, aquilo que tinha começado como um filme de fantasmas de Pablo Larraín acaba por parecer simplesmente uma minissérie da Netflix exibida em sala.

Pablo Larraín e Mercedes Moran, em San Sebastian.

Também em competição, Krux, estreia na realização da alemã Ulrike Tony Vahl, começa como um filme de terror. Num pequeno povoado do nordeste da Alemanha, dez dias antes do fim da Segunda Guerra Mundial, Greta revive o próprio casamento tendo um capacete no lugar do marido morto. Pouco depois, uma cerimónia de casamento perturbadora transforma a frase “até que a morte os separe” numa espécie de presságio. O que inicialmente parece ser o desequilíbrio de uma mulher revela-se, afinal, o sintoma de uma comunidade inteira.

A aproximação a A Fita Branca, de Michael Haneke, é quase inevitável: a aldeia alemã, as crianças, o professor, mas sobretudo uma atmosfera de repressão, puritanismo e obediência que começa a ruir à medida que a derrota se aproxima. O rio devolve cadáveres, o inimigo aproxima-se e os habitantes continuam agarrados aos rituais que lhes garantiam uma aparência de normalidade.

Vahl constrói essa atmosfera através da fotografia, da encenação e do som, transformando uma paisagem aparentemente idílica num lugar profundamente inquietante. A água, normalmente associada à vida, torna-se aqui veículo da morte. Por vezes, porém, a simbologia é demasiado evidente — serpentes, cegonhas, vermes, abelhas —, como se cada ideia precisasse de encontrar imediatamente a sua imagem.

O verdadeiro horror de Krux acaba por não estar no inimigo que se aproxima, mas numa comunidade incapaz de imaginar uma vida para além daquilo em que foi ensinada a acreditar. Quando a obediência e o patriotismo radical deixam de ser instrumentos de sobrevivência e passam a determinar o próprio destino da comunidade, a guerra já quase nem precisa de aparecer para produzir os seus mortos. E talvez seja aí que Krux encontre uma ressonância mais contemporânea: num filme sobre o fim da guerra que acaba por falar também dos mecanismos através dos quais uma sociedade pode continuar prisioneira das suas próprias crenças.

Por outro lado, igualmente insólito, Mis muertos tristes trouxe à memória Tangles, a animação de Leah Nelson, uma das “Pérolas” do festival, acompanhada por uma receção crítica praticamente unânime. Este é o relato de uma jovem artista confrontada com o Alzheimer da mãe, inspirado na experiência da autora da novela gráfica, Sarah Leavitt. O filme tem sido valorizado pela sua capacidade de produzir emoção, pela animação e pelas interpretações vocais.

Tangles, de Leah Nelson

No entanto, é precisamente aí que surge o problema de Tangles. É que esta história jamais abdica de um rosário de estereótipos — sim, da comunidade queer a que pertence Leavitt, mas não só — quase sempre num tom demasiado condescendente, que acaba por esvaziar qualquer possibilidade emotiva, na ânsia de conduzir o espectador para aquilo que deve sentir. A doença, a família, a perda e a memória surgem já carregadas de um significado emocional que o filme insiste em sublinhar a memória como espaço de empatia, embora se deixe quase sempre enredar, e fechar, sobre essa mesma emoção.

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