Sexta-feira, Dezembro 8, 2023
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Os Fabelmans: Spielberg é o homem da câmara de filmar

Steven Spileberg será, por mérito próprio até, um verdadeiro mago do cinema americano. E, por mago, entenda-se com uma capacidade de produzir magia, feitiçaria. Da sua habilidade em gerar sonhos tem falado todo o seu cinema, tanto antes como depois do advento do cinema digital, a coincidir com o início do século XXI. E até a bênção do toque de Midas lhe pode ser atribuída, já que transformou inúmeros projectos seus em ouro puro. Ainda assim, sem esquecer tudo aquilo que fez antes da sua fase blockbuster, do qual não esquecemos. Razão pela qual um projecto baseado na sua origem com realizador estaria de imediato calhado para granjear toda a atenção do mundo. Mesmo que The Fablemans não nos tenha impressionado de imediato. Como deveria de ser. Talvez porque a questão do sonho lhe seja sempre exigida. Seja como for, a nossa experiência inicial com o filme não foi positiva.

Aproveito até um post publicado no Facebook: “Não gosto nada de me contradizer. Sobretudo nas opiniões sobre filmes. Isto a propósito do Fablemans, que detestei a primeira vez que o vi, numa sessão sem público. Achei-o ‘light entertainment’ e usei a “máxima” do Ford para focar ao centro o horizonte desta espécie de selfie cinematográfica de Spielberg. Revi-o agora em casa, graças ao screener (DVD) que me enviaram pela companhia, para ‘awards consideration’. E nem pensava em o rever, pois lembrava-me do filme todo. Na altura vira até o The Biggest Show on Earth, do DeMille (de que já pouco recordava) para estar bem enquadrado.

Pois bem, desta vez, deixei-me seduzir. Não que ache o filme uma obra-prima (não acho), mas encantou-me a maneira de mostrar aquele jovem que se demarca do entretenimento que provoca, concentrando-se antes no gesto de fazer cinema. E é na habilidade de nos mostrar o lado deste ‘homem-fábula’ que maneja a realidade no ecrã, que me tocou por essa proximidade ao dispositivo cinema. Não me enganei, quando vi a primeira vez – acho que não seduz verdadeiramente enquanto filme -, mas é muito eficaz nessa demonstração da posição do homem da câmara de filmar. E isso é (quase) tudo. Now, get the hell out of here!, como diz o Ford… “ Adiante.

Os Fablemans O mago do cinema na sombra da luz.

Na verdade, a usurpação do título do filme do pioneiro russo Dziga Vertov (apesar de ter nascido na Polónia), datado de 1929, acaba por fazer sentido. Desde logo, porque não nos vem de imediato à cabeça um filme tão centrado na ideia do cinema. Claro que tivemos Hugo, de Martin Scorsese, em 2011, a testar o formato 3D, mas talvez um dos méritos de Fablemans é a sua nudez de efeitos especiais. Mas ao apostar no nascimento do jovem Sam Fableman (o muito convincente Gabriel LaBelle) para a descoberta do cinema, não há como não assumir também a nudez de um cinema sem efeitos. De um cinema que mostra como se fazem os mais rudimentares efeitos. Apesar de reconhecer uma certa falta de química de quase todos os adultos – (Michelle Williams, Paul Dano, Seth Rogen, ou Judd Hirch). Talvez por isso, pela narrativa singela da sua própria história, necessariamente despojada de efeitos, o filme tenha sido um flop na estreia americana (a pior entrada de sempre de um filme do Spielberg). O que acaba por constituir até um motivo suplementar de uma muito maior aderência ao filme.

É inquestionável o lado autobiográfico do filme, de resto, confirmado pela derradeira legenda de crédito, onde Steven Spielberg dedica o filme a Leah (Adler) e Arnold (Spielberg), os seus pais, falecidos em 2017 e 2020, respectivamente.

Volto ao ‘homem da câmara de filmar’ para justamente sublinhar essa ligação que o filme faz do homem ao dispositivo. E pela forma como faz cinema ao ilustrar o nascimento do próprio métier. Algo que se pode tornar arriscado, sobretudo num mundo totalmente derrotado para o digital e que é confrontado com uma certa arqueologia do cinema. Algo que nasce com os home movies e a tentativa (quase bigger than life do garoto Sam em recriar um dos planos mais espetaculares do filme de DeMille (The Biggest Show on Earth), quando o carro é colhido pelo comboio).

Os Fablemans: a arqueologia do sonho.

O problema é que a própria audiência do cinema de Spielberg está contaminada por algo que ele próprio ajudou a crescer, ou seja, o cinema espectáculo em grande escala a pensar no box office. Porque é tudo isso que Fablemans não é.

Trata-se aqui de filmar a memória familiar, dentro dos seus principais eventos. E aí, teremos de dar a mão à palmatória, o Sr. Spileberg (e o guião de Tony Kushner) não se furta a nada, inclusive ao tom de infidelidade da mãe captado pelo feitiço da sua própria câmara. Ou quando promove a herói um dos bullies da escola e a vilão outro, simplesmente pela forma como os filma num filme de Spring break. E como, em ambos os momentos, bem como em outras situações em que projectava os seus home movies feitos com a prata da casa e os colegas da escola, recorre a truques de efeitos especiais inventados por si. Com a particularidade do jovem Sam ser mostrado numa atitude de recato, quase de sombra. Como o tal feiticeiro que não reclama os seus poderes.

Foi então um pouco por aí que a segunda visão se foi afirmando. E sobre as prestações artísticas e a falta de uma química absoluta dos actores que nos cative e seduza, apetece dizer o seguinte: tal como as nossas próprias vidas terão algo de banal e pouco espectacular, também Spielberg revela uma certa normalidade banal, embora por um rigor de querer ser apenas honesto à própria descrição da sua vida. Sem necessidade de criar uma dimensão mitológica (que existirá mais na nossa cabeça, como necessidade, sobretudo se for mostrada como filme). Porque é ele mesmo, com a sua câmara de filmar, que se torna num ente quase perigoso, como um feiticeiro capaz de alterar a vida das pessoas. E será talvez esse o lado mais épico do filme sobre o homem com uma câmara de filmar, ainda que seja talvez demasiado subtil para conquistar multidões.

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