Best off do festival de San Sebastian: o amargo e doce da seleção oficial

Entre a abertura com o semi-biogrtáfico de Miyazaki e o fecho com o génio de Sauel Beckett.

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L'île Rouge, de Robin Campillo

Foi como um doce de pigmentos amargos o desfrute da seleção competitiva da 71ª edição do Festival de San Sebastian. De resto, a comparação facilita uma explicação calhada para aplicar à tonalidade dos filmes que pudemos ver (pois não vimos todos) na seleção oficial a concurso para a Concha de Ouro. Desde logo, faltou-nos até um grande filme, capaz de assumir esse fôlego de cinema e das suas causas. Fruto, quiçá, de um posicionamento do festival após os grandes certames internacionais captando, naturalmente, os filmes mais desejados. Ainda assim, com alguns pontos de doçura.

Olhando de relance as escolhas da programação, parece-nos claro que uma boa parte das propostas assentaram em vontades de comunicação, em inseguranças, dúvidas, uma dualidade de comportamento, distanciamento ou entrave. De certa forma, um tronco comum refletido em vários exemplos.

Curiosamente, ainda assim, a escolha para a Concha de Ouro, o filme da espanhola Jaione CambordaO Cornoem co-produção com Portugal (Rodrigo Areias), assegurada pela fotografia belíssima de Rui Poças, até funciona como uma digna e saborosa exceção. Ao captar a fuga para de uma parteira para o nosso país, em 1971, depois de ajudar uma rapariga e acabar por ver-se nesse mapa de confronto entre o dilema da sobrevivência e a ética do dever.

Muito mais consentâneos com a ideia de comunicação falhada foram, desde logo, o posicionamento de MMXX do romeno Cristi Puiu, precisamente centrado em questões de comunicação, ao longo de diferentes episódios. Mesmo que do interessante e insólito primeiro episódio, baseado num questionário terapêutico, ou numa conversa telefónica ou distintas conversas atravessadas por vários obstáculos. Um pouco como em Ex-Husbandsdo americano Noah Pritzker, abordando as diferentes crises pessoais e afetivas de um pai divorciado e dos seus dois filhos; ou então as inseguranças de diversos casais que se submetem à derradeira de amor, aparentemente comprovada pela tecnologia, arrancando uma unha da mão, na tentativa do grego Christos Nikou (ex-assistente de realização de Yorgos Lanthimos), em Fingernails.

Le Successeurdo francês Xavier Legrand, abordou as expetativas de um influencer de moda ao posicionar-se diante de um passado familiar que abala toda a sua confiança, ao passo que a câmara de Joaquim Lafosse focou em Un Silence uma revisão dos vícios privados de um político (Daniel Auteuil). Sentiu-se ainda no singelo Un Amorda experiente espanhola Isabel Coixet o confronto da dualidade que leva a protagonista a submeter-se (e a aceitar) uma inesperada proposta sexual em troca de favores materiais, permitindo-lhe descobrir até algo de si própria que desconhecia. Por fim, no interessante projeto de Robin CampilloL’île Rouge, conjuga-se o peso da memória juvenil com as mudanças de um país marcado pelo colonialismo, como a ilha de Madagascar.

Por fim, a animação The Shot the Piano Player, igualmente em co-produção nacional (com a Animanostra e a RTP), permitiu ao cineasta Fernando Triueba e o artista e desenhador Javier Mariscal abordar a vibração do ritmo bossa nova, ao mesmo tempo que auscultavam os efeitos da repressão das ditaduras da América Latina, tendo como base o desaparecimento de um pianista brasileiro. Foi assim.

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