O Rapaz e a Garça: a olhar para o infinito (e mais além)

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Mesmo que O Rapaz e a Garça escape ao estatuto de obra-prima, algo a que o mestre Hayao Miyazaki nos foi habituando, ao longo das décadas, é inegável o seu poder de puro encantamento. Sobretudo quando aqui mescla a fantasia com as mais vincadas pinceladas biográficas. Ainda por cima após uma década de silêncio, uma vez que o anterior As Asas do Vento data de 2013.

O certo é que este novo filme – mesmo que possa ser o seu último, como o próprio anunciou – empurra-nos, tal como a Alice, de Lewis Carroll, para um novo mundo de maravilhas e universos paralelos. Aqui sublinhado pelo desejo de Miyazaki refletir sobre a totalidade da sua obra, retomando temas queridos, aliados a soluções narrativas e visuais que aqui assumem uma certa descompressão.

Na verdade, há muito espaço de encantamento em O Rapaz e a Garça, sobretudo pela forma como o animador japonês articula a passagem complexa entre a infância e a idade adulta. Aliás, o filme adapta a obra de Genzaburo Yoshino, How Do You Live?, de 1937, por sinal, um livro que aparece no filme quando o adolescente Mahito, no que será certamente uma aproximação ao próprio Miyazaki, o lê num momento central da narrativa. Este é mesmo um filme que parece reunir vários dos seus filmes anteriores, facilitando um exercício da memória que nos aparece sempre entre a fantasia, o mundo real we o infinito.

De certa forma, é como se Miyazaki nos quisesse transportar para um outro mundo, uma outra vida, ligando as suas viagens espirituais com algo que já é mais maduro e está mais além. Até como uma espécie de portal para uma outra vida? Aliás, uma das cenas mais perturbadoras é-nos dada logo na sequência de abertura, em que Mahito procura a mãe, enfermeira num hospital – isto durante bombardeamentos a Tóquio em plena 2ª Guerra Mundial, permitindo até incluir a memória do pai ligado a uma fábrica de armamento, e que irá transmitir a Mahito um segredo de família.

O Rapaz e a Garça (foto: Outsider Films)

O encontro crucial ocorre quando a mãe aparece num hospital em chamas, após um bombardeamento, permitindo um momento de sublimação e arrebatadora transformação visual. Esta uma cena que nos fez até lembrar o magnífico Grave of the Fireflies, do seu colega Isao Takahata. Pois é neste momento de perda do corpo, ou da sua transformação, que Miyazaki sugere uma reflexão sobre a mortalidade, como se, de alguma forma, fosse algo que ele próprio já equacionara. Aliás, era já esta a dimensão que imprimia a marca do autor de A Viagem de ChihiroTotoro ou Princesa Mononoke, permitindo que a imaginação alcance lago sempre mais adiante, apenas movida pelo encantamento.

Ainda assim, neste filme onde reinam as ideias visuais, é evidente a vontade de repensar uma carreira muito vasta e habitada pelos maiores momentos oferecidos em imagem animada. É a este riquíssimo património que o autor rende homenagem, convocando a um desfile final personagens, como a garça que dá o nome ao filme, bem como outras aves, como pelicanos e periquitos, mesmo sem serem todas totalmente conseguidas, embora celebrando essa capacidade de voar, um elemento central da imagética de Miyazaki.

Caso seja mesmo o seu último filme, O Rapaz e a Garça será seguramente um adequado epitáfio. Se não for, pelo menos, fica aqui uma recapitulação de uma carreira incomparável. Como uma meditação pessoal, algures entre este mundo e um outro ainda mais além.

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