Quinta-feira, Fevereiro 29, 2024
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FILMar o apocalipse do luso-colonialismo

Como representava o cinema o colonialismo luso-tropical? A partir das sugestões trabalhadas no livro da investigadora Maria do Carmo Piçarra, o Porto/Post/Doc fez um programa em colaboração com o projeto FILMar.

O conjunto do programa FILMar, apresentado no Porto/Post/Doc (PPD), mostrou-se à altura do grau de qualidade manifestado pela programação global deste festival de cinema do real. Na verdade, o vigor da seleção de filmes do património português, ligados pela sua vocação marítima, destacou-se no contexto da 10ª edição do PPD. 

Dir-se-ia que assistimos a um rigoroso recorte geográfico estabelecido ao longo do mapa colonial português, devidamente impulsionado por uma “retórica luso-tropicalista que propagandeava a importância – mítica, porque já passada – de um império outrora vasto”, como sublinha a autora e investigadora Maria do Carmo Piçarra no seu mais recente livro Vento Leste – “Luso-orientalismo(s)” nos filmes da ditadura, lançado durante em parceria com o PPD e que serviu de mote à seleção do património fílmico apresentado.

Destaca-se a importância do material recuperado e preservado pela Cinemateca Portuguesa, em cópias digitais produzidas no âmbito do PRR e integradas no projeto FILMar, dirigido por Tiago Bartolomeu Costa. Estabelece-se aqui um diálogo interessante entre imagens de propaganda do regime do Estado Novo, no seu confronto com os filmes de inspiração revolucionária que lhe sucederam. Por isso mesmo, são imagens que importa analisar, refletir e confrontar, sobretudo numa altura em que se aproxima a comemoração dos 50 anos da revolução de Abril e do processo de descolonização subsequente. 

Por ser escassa e tardia a representação fílmica do ‘luso-orientalismo’, Nan expressão de Piçarra, estas sessões tornaram-se ainda mais pertinentes e valiosas. Desde logo, os seis minutos de Macau – Cidade Progressiva e Monumentalde M. Antunes Amor, datado de 1923, ainda no período do cinema mudo, e que se aproximam até do olhar dos operadores do cinematógrafo, enviados pelos irmãos Lumière aos quatro cantos do mundo. Desde logo, pela procura do exotismo, mas também da captação daquele preciso instante. Embora já não quando se focam na documentação dos marcos públicos de Macau como forma de exaltação patriótica.

Curiosa é a descoberta da visão de Miguel Spiguel, um turco radicado em Portugal, privilegiando em Os Pescadores de Amangau, de 1958, (embora no genérico se refira Os Pescadores de Macau), um ângulo dos pescadores locais, em que se “dispensou o habitual discurso luso-tropical e não procurou enaltecer a portugalidade”, como sublinha Piçarra. Já em Sentinelas do Mar (1959) assume-se a visão propagandística da vida a bordo de um navio da marinha portuguesa em patrulha na ‘fronteira do Oriente’. Com inusitada curiosidade de certos planos parecem imitar uma proximidade ao ‘revolucionário’ O Couraçado Potemkine, de Eisenstein, ainda que sem qualquer intenção de questionar o colonialismo português no Oriente.

Obrigatória neste contexto, será a singularidade de Catembe, a docuficção de Manuel Faria de Almeida, estreada em 1965, com a tentativa de captar a realidade da vida em Lourenço Marques. No entanto, o produto final acabaria trucidado pela censura, ficando reduzindo a meros 45 minutos dos 87 finais. O que lhe valeria ser conhecido como ‘o filme português mais cortado pela censura do Estado Novo’. Apesar de tudo, foram recuperados 11 minutos de cortes que acompanham em complemento.

Le Portugal d’outre mer dans le monde d’aujourd’hui (1971).

No programa, merece um destaque à parte, Portugal d’autre mer das le Monde d’Aujourd’Hui, o documentário assinado por Jean Leduc, em 1971 (e filmado entre o verão de 1969 e a primavera de 1970). Talvez porque seja um documento onde o ponto de vista político surge de forma ainda mais obtusa. Desde logo por o filme abrir com um cartaz de propaganda da União Nacional, a força política que elegeu Marcelo Caetano, em 1968, substituindo o enfermo Salazar.

O filme pretende veicular uma ‘visão estrangeira’ do colonialismo português, de forma a dar credibilidade a um regime em esforço de renovação, embora na continuidade. Como é natural, evocam-se aqui os ex-libris do regime ultramarino: seja a catedral de Macau, os casinos, ou ainda a curiosidade do teatro de São Tomé, e todo o potencial e riqueza das matérias-primas de Angola e Moçambique. Po fim, até uma referência lateral aos “movimentos terroristas” na Guiné-Bissau, “que teriam desaparecido se não tivessem a ajuda de potências vizinhas”, como salienta para a câmara, em entrevista em língua francesa, um lacónica Marcelo Caetano.

E agora o apocalipse colonial!

Por fim, a explosão de Acto dos Feitos da Guiné. Um filme feito a partir do material captado por Fernando Matos Silva, durante a guerra colonial, sem esconder algumas imagens que demonstram toda a barbárie, embora apenas lançado em 1980.

De referir que, no contexto das sessões, Acto dos Feitos da Guiné assume-se mesmo como um ‘bicho’ diferente. Desde logo, por se revelar nos antípodas dos restantes e, sobretudo, pela intenção de suscitar a reflexão e de criar uma certa ideia de cinema. 

É precisamente na sua oscilação entre o passado e o presente, a visão de Portugal e das colónias, entre a realidade e a ficção, a cor e o preto e branco, ‘nós’ e os ‘outros’ que se reflete uma poesia (aliada à música de Fausto) e transforma este ‘Acto’ em algo fica muito próximo do nosso ‘Apocalipse’.

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