Domingo, Julho 21, 2024
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Martin Scorsese alerta: “Não devemos deixar que a tecnologia nos controle!”

Martin Scorsese esteve em Berlim: recebeu um Urso de Ouro honorário, homenageou o cinema de Michael Powell e Emeric Pressburger, em 'Made in Ingland', e conversou com Joanna Hogg, no contexto dos Berlinale Talents.

Martin Scorsese foi, com toda a certeza, o nome mais importante desta 74ª edição da Berlinale. Isto, claro, sem desmerecer a vencedora do Urso de Ouro, Mati Diop, e os restantes galardoados na cerimónia de entrega dos prémios. Seja como for, a presença do cineasta americano serviu como a grande lição de cinema deste festival. Mesmo aos 81 anos, provou que mantém o seu espírito criativo intacto, tal como inabaladas as expetativas do seu mais recente filme, Assassinos da Lua das Flores, na próxima corrida aos Óscares, a 11 de março. Isto um dia depois de sabermos que irá governar Portugal.

Figura de proa do movimento de preservação do cinema de património, um pouco por todo o mundo, o mestre Scorsese garantiu, num encontro com a imprensa acreditada, que está em forma para o cinema, mesmo num mundo demasiado distraído com outras coisas. A prova é o projeto que deverá desenvolver sobre Jesus Cristo, himself, na sequência do recente encontro que teve no Vaticano, com o Papa Francisco. Acima de tudo, diz ele, o mais importante será manter acesa “a voz individual do artista que faz filmes”. Nem mais. 

Martin Scorsese veio a Berlim para ser homenageado com um Urso de Ouro pela sua carreira, aliás, num prémio em que sucede ao seu amigo Steven Spielberg. Mas esteve igualmente presente no filme This is England – The Films of Powell and Pressburger, de David Hilton (de que falaremos numa outra peça), talvez o filme mais valioso que vimos ente ano em, dando voz ao trabalho precioso dos artistas Michael Powell e Emeric Pressburger. Durante a sua estada, teve ainda tempo para uma conversa de mais de uma hora com a cineasta e argumentista Joanna Hogg, num programa integrado no Berlinale Talents. Ou seja, encheu-nos as medidas.

Talvez por estar num dos mais prestigiados eventos de cinema do mundo, salientou que “os festivais de cinema sempre foram um momento de relevação de novos talentos”, destacando em particular “a voz do artista individual que faz filmes” – esse mesmo que pode marcar-nos “com um filme que vejamos uma vez, mas que iremos recordar toda a nossa vida.” Pois, mesmo se o virmos 30 anos mais tarde, como ele diz: “o filme já será outro; na verdade, será o mesmo, mas nós já mudámos de certeza.”

É precisamente esse lado de recuperação do património que tem desenvolvido na The Film Foundation, instituição que fundou, juntamente com vários cineastas amigos, como Coppola, Spielberg, Lucas, De Palma, Eastwood, etc., e que tem um programa de recuperação de obras-primas notáveis, mas também da descoberta de talentos escondidos nas mais variadas latitudes. 

É este o seu credo: “em primeiro lugar, procuramos filmes que nos influenciaram. A mim, ou ao Brian de Palma, ao Steven Spielberg, ao Paul Schrader, a todo o grupo. Nós crescemos juntos. A certa altura, por volta de 1971, 72 ou 73, um pouco antes de todos nós começarmos a fazer filmes, apercebemo-nos de que era muito difícil, por vezes, encontrar cópias, boas cópias de certos filmes que queríamos ver. Por isso eu digo que há uma magia de descobrir algo novo, como sucede nos filmes do Powell e Pressburger. Ou seja, no cinema enquanto arte.” E cita os nomes de John Ford, Satyagit Ray ou até Akira Kurosawa, três nomes relevantes na sua formação de cineasta.

Mas se alguém ousar dizer que o cinema, tal como o conhecemos, esta a morrer, Marty irá contrapor: “O cinema não está a morrer, mas também nunca foi encarado como sendo apenas uma coisa”, até porque, segundo recorda “estávamos habituados a que fosse apenas uma coisa”, pois “quando dantes queríamos ver um filme, teríamos de ir mesmo ao cinema, não haveria outra possibilidade. Nesse sentido, os festivais de cinema trouxeram essa novidade nos dar cinema vindo de outras paragens. Só que a tecnologia mudou de uma forma tão rápida, em que a única coisa que ficou foi realmente a voz individual. Quer ela se expresse no Tik Tok ou num filme de quatro horas, ou até em miniséries”. Sintetizando, “onde eu quero chegar é que não devemos deixar que a tecnologia nos controla, deveremos orienta-la para a direção certa e não deixar que controle a voz individual”.

Sim, Martin Scorsese acalenta ainda um projeto sobre a vida de Jesus Cristo. Segundo ele, foi algo que vem do seu passado “quando crescia no Lower East Side e do meu interesse no catolicismo e no sacerdócio”. E que acabou por ser concretizado no filme Silencio (2016). Aliás, como confirma “foi nesse contexto que me encontrei com o Papa (Francisco) e que penso em formas mais atuais de representação de Cristo. Sim, é algo que estou a pensar fazer. Mas não sei. Talvez algo único e intelectualmente provocador, mas ainda não estou certo. Talvez depois desta promoção e de dormir um pouco…”

Sim, vamos aguardar para seros salvos. Outra vez. 

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