Sábado, Abril 20, 2024
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Marcha sobre Roma: o catálogo de propaganda fascista

Finalmente, recuperamos, em Karlovy Vary, Marcia Su Roma/Marcha Sobre Roma, o documentário, em estilo de vídeo ensaio, do autor e documentarista Marc Cousins, natural da Irlanda do Norte. Com exibição o ano passado, no festival de Veneza, marca-se assim o centenário da marcha fascista sobre Roma, documentada em A Noi!, um filme de 22 minutos, realizado em 1923, por Umberto Paradisi. No que será um dos primeiros registos de propaganda fascista, e que haveria de servir de modelo tanto a Leni Riefenstahl, para o seu O Triunfo da Vontade (1934), como até para o lusitano António Lopes Ribeiro, para o seu A Revolução de Maio (1937). “Com amor, de possível, com a força, se necessário”, como se escuta no filme, como parte do discurso oficial usado na época.

Em Outubro do ano passado, passaram 100 anos sobre a tomada do poder por Benito Mussolini, na sequência da marcha para Roma dos camisas negras do Partido Nacional Fascista. Sendo que a 6 de Janeiro de 2023 terá passado apenas um ano sobre a invasão do Capitólio, em Washington, na sequência da derrota de Donald Trump; dois dias depois dessa data, a 8 de Janeiro, ocorria o assalto ao Palácio do Planalto, em Brasília, por apoiantes de Jair Bolsonaro inconformados com a derrota nas presidenciais para Lula da Silva. Na sequência de efemérides, poderemos até acrescentar que daqui a três anos fará igualmente um século sobre o golpe de estado de 28 de Maio, que resultou na queda da Primeira República Portuguesa e na instauração da Segunda República. E que através da Constituição de 1933 haveria de transformar a República no Estado Novo, o regime que haveria de manter-se em Portugal até à revolução de 25 de Abril, de 1975, cujo meio centenário se completará no próximo ano.

O que une todos estes casos? Não estaremos longe se dissermos que é a afirmação do populismo ligado à tomada do poder pela força por parte de forças de extrema direita. E que se serve das imagens do cinema, ou, mais recentemente, do poder das redes sociais, para provocar a exaltação das massas. É nesse sentido que a análise detalhada de Marc Cousins ao filme A Noi! (a nós!), de 1923, permite perceber de que forma o cinema, e a sua manipulação, serviu os intentos políticos de Mussolini e convertendo-se até num ‘caso de estudo’.

O filme começa até com o rosto de Trump e a pergunta de um jornalista que lhe pergunta se sabia que a frase por ele proferida “é melhor viver um dia como leão do que cem anos como cordeiro” pertencia a Benito Mussolini. Em esgares e hesitações, Donald lá assume que “é uma boa frase” e reconhece que sabia quem a tinha proferido. Já na fase conclusiva de A Noi!, Cousins recordará igualmente vários clones desse modelo, entre eles, Bolsonaro (ainda sem antes da invasão deste ano em Brasília), e, em particular, Salazar, na sua mesa de trabalho, acompanhado por um retrato de Benito Mussolini. Bem como outros candidatos, como Le Pen, Orban, Modi, que se juntam a Putin. Por certo, a todos terá servido de inspiração o livro de Gustave Le Bon, Psicologia das Massas, de 1895, precisamente o ano do nascimento do cinema. Estaria talvez na cabeceira do espanhol Primo de Rivera, durante o golpe de estado de 13 de Setembro de 1923, e maia tarde de Franco, um “avatar de Mussolini”, como descreve Marc Cousins.

‘Marcia su Roma’ (Foto: KVIFF)

Grande parte de Marcha Sobre Roma reflete a análise cuidada do filme, identificando os elementos em que os truques do cinema, através da montagem, permitem usar esse dispositivo em favor da criação de um movimento de massas, com diversas cenas repetidas, como forma de prolongar uma marcha pífia, que, de grandiosa, terá tido pouco. Desde logo, retirando cirurgicamente os planos que mostravam a chuva, a lama e a escassez de participantes, em troca da exploração da grandiosidade solarenga do conjunto. Com a particularidade do Il Duce não ter participado na marcha, embora tenha sido inserida a sua imagem para aparecer alguns locais decisivos.

No fundo, o resultado que temos funciona como uma cartilha do cinema de propaganda, que terá até sido aproveitado por António Ferro no seu Secretariado Nacional de Informação e no controle da atividade cinematográfica, durante o Estado Novo.

Alba Rohrwacher (Foto: KVIFF)

Paralelamente, Cousins invoca imagens atuais da cidade de Roma, como que a fazer a ponte com o presente, além da introdução da atriz italiana Alba Rohrwacher, a encarnar o que seria a alma das mulheres da época, dando voz à desilusão do povo preparado para abraçar uma nova quimera. Olhando-nos olhos nos olhos, Alba confere essa dimensão humana, por certo, hoje replicada por outras. Assim vamos, “com amor, de possível, com a força, se necessário”.

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