Quarta-feira, Maio 29, 2024
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Mother of all Lies: Asmae el Moudir encena a imitação da vida

Se é verdade que a fotografia funciona habitualmente como recuperação ou revitalização da memória, já a sua ausência, como sucede em Mother of All Lies – o documentário apresentado na secção do Un Certain Regard, no passado festival de Cannes, que lhe deu o prémio de melhor realização e documentário, agora revisitado em Karlovy Vary, na secção Horizontes -, só favorece o vácuo sem retorno de uma memória cada vez mais imprecisa. Que o diga a marroquina Asmae el Moudir, relegada desde a adolescência a uma única fotografia capaz de responder pelo seu próprio passado, mas também por tudo aquilo que lhe foi ocultado por uma cultura e tradição em que o registo fotográfico era considerado tabu.

É então essa imagem manquante o leit motiv do seu inquietante e atraente documentário biográfico. Durante uma década, esta jovem cineasta de 33 anos procurou criar o seu próprio registo. E na ausência de evidências fotográficas, suas e da sua família, gerou um microcosmo em forma de diorama, em que os diferentes elementos foram reproduzidos em pequenas réplicas de barro e cartão recriando a casa e a rua do bairro em que habitaram. Esta foi a forma de interpelar a memória pessoal e a história do país.

O filme parte das seguintes interrogações da autora: porque razão existia apenas uma única fotografia de Asmae enquanto criança? Quais os motivos pessoais e, sobretudo, políticos por detrás dessa ocultação da imagem? Como se percebe, estamos aqui em pleno território da investigação biográfica, quase como de um thriller se tratasse. Mas há outra fotografia: a de Fatima, uma jovem morta em 1981, durante a Greve do Pão, em Casablanca, motivada pelo aumento brutal de preços de alimentos básicos, e onde terão morrido cerca de 600 pessoas. Contudo, o corpo de Fatima nunca foi encontrado, no mesmo bairro onde Asmae costumava brincar, enquanto adolescente, uma década mais tarde. “Fatima é a memória sem corpo,” refere a cineasta no filme. Daquele dia, subsiste ainda um registo de imagem, uma fotografia a preto e branco com mortos na ruas e bicicletas abandonadas.

É todo esse momento que acaba encenado naquele estúdio onde a família se confronta com o seu próprio passado e os fantasmas da memória. Pois este é um filme baseado na memória reprimida, embora deixando espaço até para alguma alegria e reencontro. O efeito é tremendo, não só pelo rigor de um cinema miniaturizado, justificado pela forma como abraça a catarse gerada entre memórias de família e a produção do seu próprio passado. Em grande parte, ditado pelo autoritarismo da avó, justificando-se que a posse de fotografia era proibida pela sua religião.

The Mother of all Lies (Foto: KVIFF)

“Fiz este filme porque tinha necessidade de contar esta história que cresceu comigo”, refere a realizadora no q&a que se seguiu à projeção no KVIFF, salientando que quis relatar algo que era também a sua história, “pois terei de saber lidar com o meu passado se quiser continuar.” Ou seja, a investigação do seu próprio passado, servindo-se do dispositivo áudio e visual para servir de interface para preencher os muitos ‘buracos’ atrás dessa representação difícil de preencher.

Inevitavelmente, um filme que se relaciona como o trauma de This Missing Picture / L’Image Manquante, filme de 2013, de Rithy Panh, ao recriar as atrocidades cometidas pelos Khmer Vermelhos entre 1975 e 1979. Ou até The Act of Killing, de Joshua Oppenheimer (2012), em que os verdadeiros agressores aceitam recriar, décadas depois, a forma como torturaram e massacraram vários indonésios (e talvez até timorenses). Só que ao contrário destes, Mother of All Lies (quase) todos os elementos de registo históricos estão manquantes.

No filme estão representadas três gerações: a da avó, bastante autoritária, a dos pais, que ensinados a não falar e ainda a geração de Asmae que sente não ter nada a perder. “Se eles não podem falar, eu posso”, confirma. É, assim, pela representação em conjunto, que se procura fazer uma ponte entre essa realidade que os mais velhos preferem ignorar e a ficção ensaiada em conjunto como hipótese de superação. “Criei este dispositivo para fazer essa passagem entre a realidade e a ficção”, diz-nos. “No entanto, mais do que abordar essa fronteira, interessa-me o cinema. Uma transição que fiz através das figuras que vemos no filme para demonstrar que podemos contar os factos de diferentes maneiras.”

Asmae el Moudir (Foto: Paulo Portugal)

Perguntamos-lhe ainda se sentiu que a criação desse universo reduzido a ajudou a recuperar uma memória que reponha a ausência de imagens fixas, agora preenchida por singulares figuras, ao mesmo tempo simples, mas capazes de traduzir com fidelidade os traços de cada um dos elementos do agregado. ”Quando comecei a fazer o filme, não tinha nada. Foi por isso que criei o meu próprio arquivo com a minha câmara durante estes dez anos (desde 2013 até 2021). Entretanto criei estas figuras, pois percebi que não poderia filmar em certas áreas. Foi um processo muito complicado. Foi bastante cansativo filmar a minha família dentro de casa, durante todos estes anos. Quando criei um espaço para eles destruí essas paredes com ‘ouvidos’. Foi o ‘clique’ para que a minha família viesse comigo e fizesse o filme comigo.“

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