Domingo, Março 15, 2026
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Tawfic Sabouni, realizador de ‘The Other Side of the Sun’:

“É necessário mostrar que as pessoas são seres humanos”

Do outro lado do sol, ou The Other Side of the Sun, o filme de Tawfik Sabouni, apresentado na secção Panorama, deixou uma retribuiu a imagem que faltava ao trauma da prisão de Saidnaya, que dá o nome ao título do filme. 

O cineasta de origem belga-síria, nascido em Damasco, encena a experiência, o tempo e os corpos esquálidos. Numa Berlinale em tonalidade pacífica. “Eu filmo com os meus olhos”, dirá Tawfik, logo no início da nossa conversa, recordando que “sonhava ter uma câmara na prisão de Saïdnaya”, pois era essa a única forma de mostrar ao mundo o que realmente se passava ali. Como não tinha máquina fotográfica, a câmara eram os seus olhos.

No filme, Tawfik (nascido em Damasco) regressa à capital síria, Damasco, logo após o colapso do regime de Assad, onde se encontra com quatro ex-reclusos da famosa antiga prisão de Saidnaya, conhecida pelo nome que dá título ao filme – ‘o outro lado do sol’.  É nesse espaço que transforma a sua memória num testemunho pungente, revelando toda a resiliência e vontade de sobreviver. Ele que foi preso depois de filmar a revolta síria em março de 2011. Depois da libertação, estudou cinema em Bruxelas, formando-se em 2022. Anos depois voltaria a Saidnaya, desta vez, acompanhado por outros sobreviventes, para reencontra e sentir o espaço do cativeiro.

É o que se sente ao caminharem pelos corredores, as salas, as celas abandonadas; ao mesmo tempo refletem sobre a sua aparência física, ao ponto de não serem reconhecidos pelas próprias mães quando lhe foi permitida a visita. Essa ponte física é transmitida através de um corpo físico, uma marionete esquelética em tamanho real. Chegou a hora de contactar Tawfik Sabouni.

Fiquei impressionado com uma pequena frase que diz logo no início do filme: com tudo o que estava a acontecer lá dentro, você sonhava com uma câmara. Mesmo estando a viver um verdadeiro pesadelo. Mas que serviu para fazer este filme… 

Sim, sonhava ter uma câmara na prisão de Saydnaya. Porque para mim, esta era a única forma de mostrar às pessoas – de mostrar ao mundo – o que realmente ali se passava. Mas como não tinha máquina fotográfica, a máquina fotográfica eram os meus olhos, os meus olhos eram a câmara e o meu cérebro era o disco rígido onde tentava armazenar todos os detalhes e todas as histórias. E foi isso que tentei transmitir.

Escuta-se também aquele ‘medo e desejo de esquecer’. Mas existe também a necessidade urgente do não esquer, não é?

É verdade. Tal como a necessidade de falar e contar a história. O que importa é a necessidade de nos manifestarmos e não esquecer. É assim que termino o meu filme, dizendo aquela frase no final do filme: fiz este filme porque era necessário. 

The Other Side of the Sun.

Quando foi preso e quanto tempo ficou detido? 

Eu estive preso em 2011 e 2012. E na prisão de Saydnaya, durante seis meses. Pois ainda estive em outras prisões. 

Voltando ao início do filme, vê-se a tentativa de recriar o lugar onde estavam, moldando pequenas maquetes de madeira. Isso é muito poderoso. Era uma necessidade habitar, ainda que em miniatura, este espaço? E assim criar uma estrutura para o cinema?

Na verdade, a ideia era criar um cenário em estúdio e construir aí a prisão. Nessas maquetes tentei reproduzir o espaço da prisão. 

E até fez um modelo humano muito eficaz que resgata esses corpos esqueléticos. Fale-me deles e da recordação dos corpos reais. 

Estávamos a falar da questão da memória, daquilo que filmei com os meus próprios olhos. A única coisa que se vê na cela são corpos e rostos. Foi isso que filmei com os meus próprios olhos. É a única coisa que conseguimos ver, mas não em detalhe porque as celas são escuras. A ideia do manequim é outra representação do que vi. O manequim no filme sou eu. São as personagens, todas as pessoas que desapareceram na prisão. 

Tinham um guião para seguir a ação? 

Na verdade, durante as filmagens eu tinha um guião. Ou seja, tinha ideias, mas não sabia o que fazer com elas. 

Como uma janela, uma rota de fuga…

Exatamente. Mas a ideia para o argumento e a escrita propriamente dita surgiram em 2020. Entretanto, envio um primeiro esboço para a produtora Julie Frères. Quando tivemos acesso à prisão real tudo mudou, a própria prisão torna-se numa personagem do filme. O trabalho de argumento foi tentar unir cada história de modo a criar uma narrativa contínua. 

Tawfik Sabouni na Berlinale 2026.

E durante as filmagens, deixava espaço para a improvisação?

Claro. Deixei-os improvisar. Não podem ser controlados porque são pessoas reais e estão a viver emoções reais. Queria que a câmara os seguisse, e não que seguissem a câmara. 

Foi fácil aceder à prisão de Saydnaya após a queda do regime?

No início, não foi fácil porque a prisão estava aberta a todos. Mas, depois, já era necessária uma autorização. E tivemos vários problemas antes de conseguirmos autorização para filmar.

Mostraram este filme às famílias das vítimas? 

Ainda não. Porque esta é a estreia mundial do filme foi aqui em Berlim. Depois, claro, iremos mostrar o filme às famílias. E vamos exibi-lo na Síria. Sim, isso vai acontecer.

Onde arranjou as imagens de arquivo que se vêem no filme?

As imagens do início, na altura da libertação da prisão? Porque havia outras. Essas imagens que mostram as forças a invadir e libertar a prisão encontrei-as no YouTube. Encontrámos também documentos espalhados pela prisão e tentámos reuni-los para os proteger. 

Sentiu algum tipo de inspiração para fazer este filme? 

Sim, claro, inspirei-me muito nos filmes. Por exemplo, no filme de Rithy Phan, L’Image Manquante, que me inspirou bastante. E também o filme de Joshua Oppenheimer, The Act of Killing. Foram dois filmes me inspiraram bastante. De L’Image Manquante inspirou a história pessoal e a forma de a contar. É o que falávamos há pouco, pois não se trata apenas de sofrimento, mas também de amor, de vida. E também no trabalho com as locuções. Já o filme O Ato de Matarinspirou-me a saber como reagir, como reviver a cena, como fazer tudo de novo. 

Agora uma perguntinha política: qual a sua reacção às palavras do Sr. Wenders ao dizer que o cinema não deve ser político?

Eu diria que o cinema é política. 

Ou a política do cinema. 

Sim, é urgente falar de sofrimento, e falar do que está a acontecer, das violações direitos humanos. Mas não devemos falar apenas de sofrimento, devemos falar mais e ir além disso. É necessário mostrar que as pessoas são seres humanos, que há esperança, imaginação e resistência. Para mim, é isso que o cinema representa. 

Como fez o equilíbrio entre o homem que fez o filme e aquele que viveu essa experiência? 

Acho que sempre quis encontrar um equilíbrio entre Tawfik Sabouni, o realizador, e Tawfik Sabouni, a personagem do filme. Nem sempre foi fácil, porque, como realizador, tenho de olhar para a câmara, tenho de dar instruções… 

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