O relevante e oportuno filme de Annemarie Jacir ilustra o sofrimento dos palestinianos na década de 30, antes da Nakba, e mostra-nos como a sua vitalidade se mantém intacta quase um século depois.
Apesar de não ter chegado à lista de nomeados finais, Palestina 36, o filme escolhido pela Palestina aos Óscares, chega às salas num momento crucial, em particular, impulsionado pela continuidade das ações condenáveis de Israel contra civis em Gaza, bem como os seus vizinhos, no Líbano.
Há uma certa urgência no filme de Annemarie Jacir, quando mais não seja, pela possibilidade de abrir a janela histórica para os anos que antecederam a criação de Israel, ali mesmo, antes do início da Segunda Guerra Mundial, em pleno apogeu dos fascismos europeus. Mas, acima de tudo, serve de auxiliar de memória para uma justa compreensão sobre a longa história de conflito entre os palestinianos, habitantes daquela terra, e os colonos judeus e o constante rolo compressor a empurrar os primeiros e a alargar o território para construir o sonhado Zion. Esse combate por terra, identidade e sobrevivência permanece vivo, como nas notícias dos jornais de hoje.
Através do filme, Jacir sublinha a responsabilidade do Império Britânico no enraizamento dessa opressão, deixando claro que a colonização foi o catalisador para a violência, as deportações e os ciclos de resistência. O filme retrata com alguma emotividade a história de uma terra marcada pelo conflito, numa narrativa que mistura o drama com muita documentação de época, incluindo filmagens reais em formato 4:3, que conferem peso histórico à obra.

Com a chegada massiva de colonos judeus e a intenção de criar um mundo segregado, diversas aldeias palestinianas iniciam uma revolta visando a autoridade colonial britânico. Entre eles, as tentativas de Yusuf (Karim Daoud Anaya) em encontrar o equilíbrio possível. Até tomar consciência da necessidade de uma união para uma revolta histórica na região.
Os palestinianos Hiam Abbass e Saleh Bakri incorporam um casal de rebeldes passionais, ao passo que o sempre imponente Jeremy Irons assume-se como comissário Sir Arthur Wauchope, gerindo com calma indiferente essa posse conturbada. Já a Robert Aramayo cabe a personificação da arrogância e violência do papel do colonizador, enquanto o brutal Capitão Wingate. Ele que não se escusa a disparar contra civis à queima-roupa ou ordenando punições coletivas a aldeias inteiras.

Palestina 36 é um filme fortemente ancorado na História, procurando compreender as razões da Revolta Árabe de 1936-1939, como um momento crucial de resistência contra o colonialismo. Razão pela qual opte por uma estrutura narrativa acessível, deixando para o público a tarefa de estabelecer os potenciais paralelismos com o traumático presente. Dessa forma, mostrando como o conflito não é apenas um dado do passado, mas sobretudo uma realidade gritante que vai moldando o mundo.
Annemarie Jacir deixa-nos com uma proposta tão aliciante quanto desafiante: mesmo com um cinema, digamos, ‘mainstream’, propõe uma dramatização sobre a política conivente do Mandato Britânico na Palestina e a forma como adequou a base legal e administrativa para o Estado sionista; por outro lado, o correspondente impacto que essa administração teve na sociedade palestiniana.
Palestina 36 é uma obra bastante competente, do ponto de vista cinematográfico, e igualmente segura no desígnio em fixar algumas verdades sobre um dos conflitos mais longos da atualidade. Para o espectador ficará a liberdade de tirar ilações sobre a evolução (e ao ‘estado a que chegámos’!) no atual contexto sócio político, global e regional.









