Sábado, Julho 20, 2024
InícioFestivaisWim Wenders em Bolonha: “Aprendi muito com derrotas e meios insuficientes”

Wim Wenders em Bolonha: “Aprendi muito com derrotas e meios insuficientes”

Durante o festival Il Cinema Ritrovato, em Bolonha, Wim Wenders não mostrou nenhum dos seus dois filmes novos – Perfect Days, em competição em Cannes, e Hansen, o documentário 3D sobre o artista Anselm Kiefer -, no entanto, foi ativo na apresentação de alguns filmes restaurados. Estivemos com o autor de Paris Texas e As Asas do Desejo numa ‘lição de cinema’ conduzida pelo diretor do Il Cinema Ritrovato, Gian Luca Farinelli. Onde se falou da sua descoberta do cinema, do uso do 3D, bem como da criação da Fundação Wenders.

“No início era para ser um filme sobre um amigo. A obra foi pensada como uma ficção, mas acabou por transformar-se num documentário. É esse sentido que expressa plenamente a minha forma de trabalhar”. Foi assim que Wim Wenders se referiu, na apresentação no festival Il Cinema Ritrovato, em Bolonha, ao trabalho realizado em Nick’s Movie – Lightning Over Water (1980), em que o cineasta alemão colaborou com o amigo americano Nicholas Ray nos derradeiros meses antes da morte do diretor de Rebelde Sem Causa (1955), filme exibido igualmente mostrado com novo restauro.

Lightning Over Water (1980)

Wenders haveria de participar ainda em outras apresentações, como Targets (1968) de Peter Bogdanovich, bem como um Ozu bastante raro Hijonsen No Onna (The Woman in the Roundup) de 1933, desconhecido pelo próprio Wenders. Ozu, como se sabe, foi uma referência fundamental de Wenders, de resto, homenageado em Tokyo-Ga (1985), mas também no seu novo filme, Perfect Days, exibido no último Festival de Cinema de Cannes.

O cinema paraíso

Wim Wenders nasceu em Dusseldorf, a 14 de Agosto de 1945, uma semana depois das bombas em Hiroxima e Nagasaqui. Mas nasceria para o cinema menos de uma década depois, em 1951. Numa altura em que não existiam ainda televisões e ele nunca tinha ido ao cinema. “Uma noite, o meu pai recordou-se que tinha uma coisa no sótão que me queria mostrar. Quando voltou transportava uma mala empoeirada. De lá tirou um projetor pequeno de 9.5mm e uma caixa de charutos com uma dúzia de filmes de um minuto cada. Miraculosamente, tinham sobrevivido à guerra e a lâmpada ainda funcionava. O meu pai ligou o projetor, colocou o filme e eu vi um após outro, de seguida. Eram filmes do Buster Keaton, do Laurel e Hardy, Harold Lloyd, algumas animações, blocos de notícias dos anos 20. No fundo, uma mistura de filmes dos anos 20 que o meu pai tinha guardado.” Algo que o transformou no garoto mais popular da escola. “Desde essa altura, passei a ser o ‘projecionista’”.

Gian Luca Farinelli e Wim Wenders (foto Paulo Portugal)

Wenders continua: “Era convidado a todas as festas de aniversários, onde ia com a mala e os meus filmes que víamos todas as vezes. Adorava ser um projecionista, embora nem imaginasse que isso poderia ser uma profissão.” Já a sua aventura numa sala de cinema foi muito menos afortunada… “Foi dois anos mais tarde, numa manhã de domingo, em que a minha avó me levou pela primeira vez a uma sala de cinema. Foi em Dusseldorf, no cinema Apollo. Ela também nunca tinha ido ao cinema. Comprou os bilhetes, mas entramos na sala errada. Em vez de um filme infantil, era exibido um filme de terror a preto e branco…. Lembro-me de todas as cenas. Pelo menos, os dois minutos que lá estive. Porque logo comecei a gritar e tentei sair passando por cima das pessoas… Durante os anos seguintes não consegui dormir sem ter a luz acesa.” Seguramente, um início traumático para a sua carreira no cinema.

‘Ao Correr do Tempo’ (1976)

A verdade é que Wim Wenders acabaria por ser responsável pela paixão de muitos pelo cinema. Até pela descoberta da função do projecionista, como sucedeu na personagem do filme In Lauf der Zeit/Ao Correr do Tempo (1975). “Eu, por exemplo, descobri essa profissão nesse filme, por tua culpa”, refere Gian Luca Farinelli. Essa uma altura em que Wenders desistiu da possibilidade de estudar Filosofia para se seguir estudos de belas artes. E assim seguiu para Paris. O problema é que não foi admitido na Academia de Belas Artes e teve de depender da amizade de colega para ter um tecto dormir. No entanto, haveria de descobrir uma forma eficaz (e barata) de passar o tempo: “Foi aí que comecei a ir à Cinemateca. Comprava um bilhete com 20 cêntimos para ver um filme e, no intervalo, escondia-me na casa de banho. Assim conseguia ver cinco filmes pelo preço de um. É claro que esse período na Cinemateca acabou com a minha carreira como aspirante de pintura…”

E assim viu cerca de 1000 filmes, como refere. O interesse cresceu pelas várias notas que escrevia num caderno, levando-o a inscrever-se na primeira escola de cinema na Alemanha, em Munique. Onde seria aceite. Apesar de não ter, sequer, uma câmara de filmar. A partir daí, o cinema seria a sua vida. E viu muito filmes apresentados por Henri Langlois, sempre contextualizados na história do cinema. “Esse era para mim um território completamente desconhecido. Eu escrevia sobre as emoções que os filmes produziam em mim. Nunca escrevi sobre a minha opinião sobre os filmes. Percebi que era uma alternativa em relação às críticas que se escreviam nos jornais.”

É nessa altura que descobre o cinema alemão dos anos 20. Uma altura em que desconhecia, por exemplo, o cinema de Murnau ou Fritz Lang, pois naquela altura, durante os anos 50 e 60, esses filmes não eram mostrados na Alemanha. No entanto, a verdadeira descoberta seria mesmo o cineasta americano Anthony Mann. “Vi todos os seus westerns e film noir. Ainda hoje acho que os seus filmes têm uma excelente arquitetura e estrutura e são concebidos como um texto. Nesse sentido, são uma excelente forma de aprender cinema. Eu aprendi o cinema com o Anthony Mann.”

Foi igualmente na escola de cinema que conheceu o jovem Fassbinder. Só que ele não tinha sido admitido. “Ele ficou tão furioso que, no final do nosso ano letivo, ele já tinha feito o seu primeiro filme. E no final do segundo ano, já tinha realizado seis filmes!” De certa forma, foi também essa sensação de derrota que alimentou a força e a energia de Wenders. “Não se aprende muito com o sucesso. Aprendi mais com as derrotas e meios insuficientes. Foi isso que me fez querer saber mais. Por isso, se alguém em oferecer muito dinheiro para fazer um filme, não saberei o que fazer. Por isso, não me ofereçam muito dinheiro…”, diz com sorriso irónico.

Fundação Wenders

Hoje, Wenders é detendo de uma carreira impressionante. Mas nem sempre foi assim. Pelo menos, durante o período em que vendeu os direitos dos seus filmes. Acabaria por os recuperar, uma década mais tarde, e criar a Fundação Wim Wenders . “Os filmes pertencem a todas as pessoas que os viram. O filme só vive porque tem um público. Por isso tenho de tirar a ideia de lucro fora da equação. Todo o dinheiro vai para os próprios filmes. Do mau pai que fui no passado passei a ser um bom pai, dando-lhe essa liberdade e uma vida nova. Acho que é o modelo perfeito. Já conseguimos restaurar vinte filmes. Começámos com Alice nas Cidades (1974), pois era o que estava em pior estado. E conseguimos dar-lhe vida.”

‘Anselm’ (2023)

Este ano, Wenders apresentou em Cannes dois filmes, Perfect Days (2023), em competição para a Palma de Ouro, e o documentário Anselm (2023), em que o artista Wenders olha o artista Kiefer nos olhos. E com um excelente uso da linguagem do 3D. “O 3D É uma linguagem cinematográfica que permite ao público ver mais. Não só por ser uma terceira dimensão, mas porque o nosso cérebro vê muito mais do que se fosse um filme em ecrã plano. O nosso cérebro trabalha três vezes mais para combinar a informação dos dois olhos na mesma 3ª dimensão. No ecrã apenas existe uma imagem desfocada. É no cérebro que se passa esse processo. Se o processo for bem feito, as experiências permitem que estejamos mais dentro da cena.” Algo que descobriu com Pina (2011), porque na altura o 3D era ainda experimental e não comercial – o Avatar (2009) ainda não tinha saído. Percebi que era uma ferramenta ideal para o documentário. Porque é aí que queremos entrar mais no pensamento dessa pessoa. Percebo que o 3D é uma linguagem muito envolvente, emocional e poética. O problema é que a maioria dos filmes que vemos em 3D não são nem poéticos, nem envolventes, nem emotivos. O meio tem sido abusado pela indústria para fazer dinheiro. Mas não para ver melhor.”

RELATED ARTICLES

Mais populares