Segunda-feira, Maio 20, 2024
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KVIFF – Joseph Fahim: “O meu problema é agora como vou superar o que fizemos”

Programador Joseph Fahim, sobre a retrospetiva Yasuzo MASUMURA em KVIFF

Foi (mais) uma tremenda retrospetiva no KVIFF, a cargo do programador e crítico de cinema egípcio Joseph Fahim. De tal maneira que após vermos os primeiros filmes de Yasuzo Mamumura tornou-se obrigatória uma conversa para explorar ideias deste realizador tão pouco conhecido no mundo cinéfilo. Será por explorar um universo algo comercial ou mainstream? Só que, em redor dos temas e os géneros específicos, são trabalhados com esmero contornos estéticos e filosóficos que conferem ao seu cinema uma urgência que temos de partilhar. Pela enorme atenção que o seu cinema está a despertar, é natural que surjam várias outras retrospetivas. Encontrámo-nos com Joseph Fahim já no derradeiro dia do festival. Mas ainda a tempo de esclarecer alguns dos pontos principais que permitem relevar este realizador nipónico que ousou contrariar a norma do cinema tradicional do seu país. Depois de se licenciar Direito decide estudar Filosofia, o que haveria de deixar uma marcar no seu cinema. Masumura foi foi o primeiro japonês a estudar em Roma, em pleno apogeu do neorealismo, aprendendo com Fellini e Visconti. Regressará ao Japão para ser assistente de realização em alguns dos filmes principais de Mizoguchi – como A Imperatriz Yag Kwei Fei Vergonha (1955), O Herói Sacrílego Vergonha (1955) ou Rua da Vergonha (1956)  e Ron Ichikawa. Estreia-se na realização com Kisses (1957), uma história de amor muito livre e cheia de movimento exterior que se adequa muito bem à Nouvelle vague, apesar de a preceder. Em Karlovy Vary foram exibidos 11 títulos do seu vasto catálogo.

Qual o elemento para si mais interessante que descobriu no cinema de Yasuzo Masumura?

Sabe uma coisa, dei-me conta que o cinema mainstream veio para ficar. É algo que ganha expressão com o crescimento da Netflix e outras companhias de streaming. Isso significa que o cinema mainstream é o mais corrente. Até podemos questionar-nos porque é que as escolhas ficaram assim tão básicas. Devo dizer que não conhecia o Masumura. Pelo menos não antes do ano passado ou há dois verões atrás. O seu cinema é muito acessível. É um cinema mainstream com o M. grande. Não é como o (Yoshishige) Yoshida (1933-2022) ou o (Shohei) Iamamura (1926-2006) ou (Nagisa) Oshima (1932-20134). Ele não tenta fazer arthouse experimental. Apesar de ter, ao mesmo tempo, um cinema bastante político. Ainda que dentro de um elemento muito popular.

Esta é a primeira retrospetiva que se faz do Mamumura?

Não. Aconteceram já algumas retrospectivas. Houve uma na Cinemateca Francesa em 2007, mas antes das operações de restauro. E acho que houve outra em Atenas em 2011, mas também antes dos restauros.

Agora já com todos os filmes restaurados…

Exato. Esse foi um trabalho feito ao longo dos últimos três anos. Por exemplo, o restauro de Red Angel (1966), em 4K foi apenas feito no final do ano passado. O mesmo com Irezume/The Spider Tattoo (1966) e muitos outros. Muitos dos restauros são muito recentes. Para uma grande parte do Ocidente, o Masumura é ainda relativamente desconhecido. E então no Médio Oriente, de onde eu sou, o cinema de Yasuzô Masumura é completamente desconhecido.

Não deixa de ser curioso, intrigante até, como o seu cinema tenha sido negligenciado.

A questão interessante será pensar como fomos de um cinema acessível e muito popular até onde estamos agora. Mas também compreender a sua canonização e porque é que ele foi esquecido durante tanto tempo. E a ditadura e opressão do ‘autorismo’, no sentido de que existem certos critérios de um determinado realizador se terá de enquadrar.

Sobretudo numa altura em que a ‘política dos autores’, nesses meados dos anos 60 – pelo menos na Europa -, estava em grande força.

Exatamente. Mas ele foi completamente deixado de fora porque não estava a fazer esse jogo. Ele é muito inteligente. Existe uma entrevista incrível – existe muito poucos elementos sobre ele – que ele fez com os Cahiers du Cinema (1970) (nota – a entrevista original foi feita em Tóqio in 1969, por Aoi Ichiro, Shirai Yoshio e Yamada Koichi (depois traduzida para francês).

Existe também o livro de Jonathan Rosenbaum (Movie Mutations), com uma parte dedicada ao cinema Masumura (e até uma comparação com Hawks e Nicholas Ray), que li para me preparar para este ciclo.

Sim, o Jonathan Rosembaum foi quem trouxe uma luz nova e que permitiu redescobrir o Masumura no final dos anos 90. É fascinante quanto há tanto para revelar.

É impressionante a sua carreira. Produziu e realizou mais do que 60 filmes. É uma obra imensa.

E eu vi uma grande parte deles. Vi pelo menos uns 40. E se calhar apenas não gostei de dois. Mesmo no seu trabalho mais modesto existe sempre algo fascinante. Tanto do ponto de vista estético, mas também político e filosófico. Mas eu dizia… Ele conclui o curso de Direito e decide estudar Filosofia. Foi contemporâneo de Yukio Mishima e Shusako Endo, um dos meus escritores favoritos, escreveu O Silêncio (lançado em 2019), Uma Vida de Jesus (lançado em 2002). Fez a sua dissertação em (Soren) Kierkegaard (1813-1855). Percebe-se que existe um lado vigoroso dominado pelo existencialismo e combinado pelas noções de individualidade combinada com estas ideologias em formas que eram bastante mainstream. Talvez por isso seja comparado a Nicholas Ray (1911-1979) ou Samuel Fuller (1912-1997). O próprio Hitchcock (1899-1980) estava a fazer a mesma coisa.

Joseph Fahim é programador do KVIFF

É interessante como ele lida com o pós-guerra dessa maneira. E naquela era. Para si, quais são os seus favoritos?

De todos ou desta retrospectiva? O que direi primeiro é que fizemos talvez a maior retrospetiva da sua obra em qualquer festival.

Já agora, ou antes de mais, como foi que surgiu a ideia da retrospetiva?

Foi a minha lendária viagem de carro com o Karel (Och). É mesmo algo que pertence à mitologia. Normalmente estou em Berlim com a minha namorada durante o Verão. E depois vou para Praga onde ele me apanha na estação de comboio. Depois seguimos de carro para Veneza. Isto todos os anos. São nove horas de viagem. Para lá e de regresso. Portanto, falamos sobre tudo. Antes desta tivemos duas retrospetivas muito bem-sucedidas. O (Youssef) Chahine (1926-2008) e a World Cinema Foundation. Fazemos um brainstorming e normalmente temos várias ideias. Algumas poderão até acontecer o ano que vem.

Pois, é mesmo on the road que surgem as melhores ideias…

Sim. Eu perguntei-lhe se conhecia o Masumura e o Karel disse-me que não tinha ideia. E foi pura coincidência que o centenário do seu nascimento será o ano que vem. Decidimos ver os filmes.

A Wife’s Confession (1961)

Foi difícil de encontrar a sua cinematiografia?

Nem por isso. Sobretudo quando fui ter com a Kadokawa, uma das maiores companhias japonesas neste segmento. Eles têm a maior dos filmes dele. Mas também vários Mizoguchi e muitos outros. Não teríamos feito isto sem eles. Pois são eles que fizeram o restauro e detêm os direitos. Existem muitos filmes que gostaria de ter mostrado. Mas para voltar á sua pergunta. Gosto imenso do The Wife’s Confession (1961). É um filme de tribunal, mas com uma enorme dimensão de interioridade dela. Aliás, é uma perfeita femme fatale. O conflito mortal no final é muito poderoso. E em pequenos pormenores, pela forma como esse sacrifício emocional é desmontado. E coloca-nos até na posição dela. O que faríamos nós? Mencionei que ele foi assistente de Mizoguchi?

Ayako Wakao, em Red Angel (1966)

Na nossa conversa ainda não.

Pelo menos, de acordo com o que li, ele era mesmo assistente, ou seja, dava sugestões de realização. E era o único que Mizoguchi escutava. Foi também através do Mizoguchi que ele conheceu a actriz Ayako Wakao, no A Rua da Vergonha/Streets of Shame (1956), o último filme de Mizoguchi. Além do A Wife’s Confession, é evidente que não podemos deixar de ficar espantados com o Red Angel (1966). Seria impossível fazer a retrospetiva sem o Red Angel. E somos o primeiro festival a fazer a estreia do restauro 4K.

A Ayako é tremenda. Uma das grandes divas do cinema japonês. E que trabalhou também com Teinosuke Kinogasa, de que vimos um ciclo em Bolonha, bem como Kon Ichikawa, de que veremos em San Sebastian uma outra retrospetiva. Isto apesar de Masumura ter sido o seu grande realizador.

Sim, concordo. O cinema japonês parece que é um reservatório infinito de descobertas que continua a dar e dar. É incrível a quantidade de cineastas que se têm revelado.

Ayako Wakao, em Irezumi (1966)

E aqui em Karloy Vary com salas cheias para o ver. Estive na Grande Sala cheia… É incrível. O Grande Auditório estava cheio para ver o Irezume (1966) às 10h. Com cerca de 1000 pessoas. É obra.

Sim, o público de Karlovy Vary é muito entusiasta. Esgota todas as sessões. Eu nunca vi nada assim. Nem em Cannes…

Temos muita sorte de ter este público. Pois se este programa fosse feito num centro cultural ou numa cinemateca (mesmo a francesa) não teria o mesmo sucesso. Acho que existe uma confiança mútua. Eu costumava perguntar durante as minhas apresentações quem já tinha visto outros filmes na retrospetiva e é normal ter cerca de metade de pessoas de braço levantado. Se gostam vão passando a palavra.

E é um público muito jovem…

E um público de todas as idades. Há um interesse enorme no cinema clássico. E sobretudo pelas descobertas. É esse mesmo o estímulo dos programadores, tentar mostrar algo como descoberta e criar um debate em seu redor. E há ainda tanto para descobrir. O meu problema é agora como superar o que fizemos. Tenho imenso orgulho na minha curadoria. Eles sabem o que esperar. Por isso regressam. Temos mesmo de pensar no público.

Muito obrigado pelas suas palavras.

Obrigado e até breve.

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