Domingo, Junho 16, 2024
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Oppenheimer: o cinema, os influencers e o Oppie do povo

Neste dias que correm, os influencers arriscam-se a ser o novo ópio do povo. Isto para quem os assume como tal, evidentemente. Porque, afinal de contas, o que é um influencer? Talvez alguém com autoridade para formular uma opinião capaz de ser acolhida por uma maioria. No cinema, como sabemos, sempre foram atuais. Pelo menos, desde que existe algo chamado crítica (ou seja, desde sempre). Mas tal como há ‘crítica’ e ‘crítica’, também há influencers mais influentes que outros. Vem esta ideia a propósito do ‘efeito’ estilo bomba atómica legitimadora que teve um post na rede social Facebook.

Foi há menos de uma semana que o cineasta americano Paul Schrader anunciou ao mundo a seguinte frase: “Oppenheimer é o filme mais importante deste século”. Tal anúncio seria imediatamente assumido como uma espécie de advento, rapidamente desencadeando efeitos um pouco por todos meios de comunicação ligados ao cinema. O suficiente, pelo menos, para elevar ao máximo o índice da mais séria curiosidade. Como se tem visto também pelas redes, com legião de espectadores à procura de saber a resposta da frase de Oppenheimer, ou seja,  “How I became death!” Bem como se uma boneca cor-de-rosa choque.

Pois, foi este o post que partilhei na rede social, depois de ver o filme de que todos falam. Numa sessão comercial esgotada, com uma procissão de figuras a deslizar agarradas a gigantescos pacotes de milho e vasos de cola, animando-se numa primeira meia hora de entretenimento alimentar. Só que, imagino eu, a maior parte estaria à espera de outra coisa, muito mais bombástica – afinal trata-se da Grande bomba.

E é aí que chego ao primeiro problema deste biopic de Nolan: ou seja, à dificuldade em verter em estilo blockbuster a adaptação do livro American Prometheus, sobre a vida de J. Robert Hoppenheimer (um apelido cacofónico escutado em cada frase do filme), numa interpretação competente de Cilian Murphy. Porque isso até seria esperado. Mas também a inépcia em o transformar num registo, digamos, ‘sério’. Mesmo diante de elementos sugestivos, como as simpatias de esquerda de Oppie e o seu rebate de consciência pacifista ao assumir o peso das 200 mil vítimas em nome da paz. Além das implicações que essa retórica tem hoje…

Oppie olha para o céu contemplando a dúvida

Infelizmente, Nolan falha ao não conseguir navegar, nem o produto comercial nem o mais recomendável. Murphy faz o que pode, embora sejam exageradas as associações aos habituais prémios de cinema. O problema principal é que Oppenheimer é mesmo um filme chato. Não sei no que o Paul Schrader estaria a pensar…

Claro que de Chris Nolan já havíamos experimentado as mais variadas versões de como tactear o abismo em que invariavelmente nos sentimos pequenos diante das ilusões não lineares que nos vai servindo. Seja no ilusionismo de Prestige (2006), ou no “get out there and save the world” de Interstellar (2014) ou nas camadas de sonhos tornados possíveis pelo cinema digital, em A Origem (2010). Ainda que a ousadia de seguir os outros como fonte de ideias em Following (1998), ou o ilusionismo da inversão em Memento (2000), constitua o par de filmes mais interessante do britânico prestes a fazer 54 anos (no próximo dia 30).

Em Oppenheimer temos o enigma pessoal de um cientista incapaz de resolver os enigmas que lhe envolvem a alma. Mesmo que seja gorado um aval de narração séria, embora dividido em diferentes épocas e escolhas estéticas – leia-se na fotografia a preto e branco e a cores -, descrevendo os três momentos de Oppenheimer. Em si, o filme em si divide-se em duas partes: Fissão e Fusão. Por sinal, os movimentos ideais para explicar o seu cinema. Mas poderemos perguntar: porque razão não funcionam aqui?

Comecemos pela ‘Fissão’, apresentando um engenheiro nerd apontado diretor do laboratório em Los Alamos (o local de eleição de Oppie, convocando no isolamento um pedaço de México). Será aí que nascerá uma cidade destinada a desenvolver o Projeto Manhattan e a Trinity – possivelmente inspirado na Trindade cristã, as três entidades que foram o divino – como nome de código para os testes nucleares, realizados em Julho de 1945, escassos dias antes das detonações em Hiroxima e Nagasaki, respetivamente a 6 e 9 de Agosto desse ano em que terminou a guerra e abriu a corrida às armas.

Um segundo nível revela a inquirição a que Oppie foi alvo, por volta de 1954, da sua atuação por uma comissão em que são questionadas também as suas simpatias comunistas, em alegações de um anti-comunismo primário, e as reticências em produzir o que seria a bomba H. Finalmente, em ‘Fusão’, já no ano de 1958, com uma luxuosa fotografia a preto e branco, abordando o inquérito a Lewis Strauss (Robert Downey Jr. em estilo Salieri, li algures esta comparação e acho-a justíssima, pois ele é, na verdade, o melhor do filme), e a sede do poder, em parte à custa de Oppie.

Ao encarar o filme com alguma distância é que se percebe como estas duas diferentes partes (ou componentes) assumem uma reação capaz de desencadear um efeito gigantesco. Mas que nunca chega a acontecer. Nem com uma opulência estética eivada de significações filosóficas. Muito pelo contrário. Como se um sentimento de pudor limitasse Nolan a uma mera alternância entre as diferentes matizes de cor, complementadas por dezenas de sombras de cinzento. Estes os indicadores de uma certa amálgama narrativa incapaz de devolver um projeto consistente de átomos narrativos capaz de provocar um almejado ‘Big Bang’. Será?

Pelo menos, nos outros filmes parece subsistir a crença absoluta numa percepção que vai sempre mais além. Aqui até a deflagração nuclear é contida e dentro de limites muito apertados. Tal como o efeito (que não é mostrado) das bombas em Hiroxima e Nagasaki, hoje pertencentes à indignação da Humanidade (que viu vezes sem conta os excertos disponíveis). O que vemos é a forma como Nolan mostra o vazio de um homem que não resistiu em deixar que tudo acontecesse, como a confirmação dos cálculos que não excluíam a possibilidade de uma reação em cadeia global. O que fica é o que nos diz a história. Ou seja, que a cultura americana passou a ser uma palatina da sua prepotência global. Em particular, após a 2ª Guerra Mundial, como sabemos, com efeitos comerciais muito vantajosos. Além da concretização do Plano Marshall, em particular, a redução do povo japonês ao ‘american way of Life’, como parece antecipar o Presidente Truman (numa caricatura montada por Gary Oldman).

naturalmente, um filme desta natureza e ambição, contempla necessariamente um desfile de notáveis secundários, destinados a povoar o olhar com personagens do semblante de Kenneth Branagh, Matt Damon, Florence Pugh, Josh Harnett, Benny Safdie, Alden Ehrenreich, ou Dane DeHaan. Nolan não se poupa até à aparição de um ‘boneco’ razoável Albert Einstein (patrocinado por  Tom Conti). É por estas e por outras que, entre a fissão e a fusão, sobra um cinema empolgado por influencers que corre o risco de se converter no Oppie do povo.

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