Quinta-feira, Maio 30, 2024
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As Águas do Pastaza: observando os meninos do rio

“As qualidades infantis deveriam conservar-se até à morte, como qualidades distintivamente humanas – as da imaginação, em vez do saber, do jogo, em vez do trabalho, da totalidade, em vez da separação”. (Agostinho da Silva)

Esta introdução do filósofo panteísta Agostinho da Silva (1906-1994) serve de janela ao arrebatador Águas do Pastaza, a estreia oficial de Inês T. Alves no cinema. Trata-se de um olhar sem preconceitos sobre o universo infantil, visto de dentro, do seu lado intocado e primordial. Anterior, portanto, aos códigos de uma educação formativa. Razão pela qual os adultos estejam praticamente afastados das águas deste rio em permanente movimento. Percebemos que eles lá estão, mas não necessitamos deles. É por isso mesmo que este singelo poema visual une de forma orgânica a essência do ser humano com o meio ambiente. Como que a segredar-nos que o progresso é acessório.

Este é um projeto feito da maneira boa, ou seja, porque parte de encontros (e de uma aprendizagem, diríamos), no caso, o encontro de Inês e a sua câmara com a quase intocada comunidade Achuar, há cerca de cinco anos, na floresta Amazónia, entre o Perú e o Equador. Ou seja, um olhar que precede o cinema e só depois o justifica. Razão pela qual a experiência de Águas do Pastaza se arrisque a ser um encontro primordial com o quotidiano idílico de crianças autónomas que têm o seu modo de vida assente na liberdade e experiência com a natureza, mesmo que não sejam totalmente alheios à entrada do progresso sob a forma digital.

É no lado observacional que a cineasta investe o seu cinema, deixando todos os indícios para a reflexão do espetador. Águas do Pastaza passou no festival de Berlim, há um ano, na secção Gerações, numa produção da Oublaum filmes, de Ico Costa, depois de ter sido indicado a programadores da Berlinale. Uma ‘descoberta’ que precipitou a conclusão do filme, “ainda sem saber se teríamos dinheiro para terminar o filme”, como nos confidencia Inês T. Alves, pois o apoio do ICA chegou apenas “no dia em que terminámos a pós-produção”.

São cada vez mais raros os casos em que o cinema contacta com a essência das coisas, convocando até a sua própria ontologia. É, por isso, um feliz encontro com a qualidade de ser criança que se dá nas águas do rio Pastaza.

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